Em Defesa do Campeonato de Portugal

Disclaimer: Sou adepto do Sporting e compreendo que o que está aqui escrito possa ser interpretado de uma forma diferente se não deixar isto estabelecido de imediato.


   O Campeonato de Portugal foi uma competição disputada entre 1921 e 1938, num formato semelhante à Taça de Portugal, mas que elegia o Campeão Nacional, ao género da atual Liga Portuguesa. Uma competição com o formato da Taça de Portugal mas com a importância da Liga Portuguesa atual. Esta competição foi disputada por 17 vezes. Mas esta competição não é reconhecida pela Federação, no sentido em que estes títulos não são contabilizados nos palmarés das equipas que a venceram, sendo essas:

- Sporting 4x
- Porto 4x
- Benfica 3x
- Belenenses 3x
- Marítimo 1x
- Olhanense 1x
- Carcavelinhos 1x (Extinto em 1942, atualmente Atlético Clube de Portugal)

    Esta foi a maior competição em Portugal enquanto existiu, onde era apurado o Campeão Nacional, o que é possível ver e confirmar através de jornais da época, e também pelo facto de que era uma competição aberta a todo o país. Eram disputadas ligas a nível regional para apurar o vencedor, que iria disputar a fase final da prova, em eliminatórias. Até aqui tudo bem, mas porque é que estou a falar sobre isto? Porque em 2005, a Federação Portuguesa de Futebol decidiu contar uma prova, a Liga Experimental, como título nacional, equivalente ao título de Campeão Nacional, algo que, na altura em que foi disputada, era vista como uma competição de nível inferior, até porque apenas equipas de 4 associações do país é que a podiam disputar, 4 equipas de Lisboa, 2 do Porto, 1 de Coimbra e 1 de Setúbal. A prova era disputada em formato de liga, com as 8 equipas a jogarem duas vezes entre si, em casa e fora. Esta prova teve 4 edições, com o Benfica a vencer por 3x e o Porto por 1x.

    Aqui chegamos ao ponto de interpretação e onde existe uma discordância entre adeptos, essencialmente tribalismo. É compreensível que se observe a olho nu e seja dito:
- Bem, a Liga Experimental é em formato de Liga por isso faz todo o sentido que os títulos sejam atribuídos.
A questão é: o Campeonato de Portugal era considerado a competição principal em Portugal, onde era visto de forma unânime que quem vencia a prova era denominado como Campeão Nacional. Como é que a Liga Experimental, uma competição que partilha o mesmo formato da atual Liga, mas que claramente não tinha o mesmo valor e nem sequer era aberta a todo o país, pode ser considerado como de igual valor à atual competição?

    A meu ver só existem duas opções para restabelecer a integridade da Federação Portuguesa de Futebol:
- Contar os títulos do Campeonato de Portugal como títulos de Campeão Nacional, onde todas as equipas que mencionei anteriormente seriam reconhecidas como Campeãs Nacionais nos anos em que venceram a prova, juntamente com a Liga Experimental deixar de ter o valor que detém atualmente;
- Abolir o reconhecimento da Liga Experimental como equivalente a título nacional, onde o Benfica e o Porto perdem o reconhecimento dos seus títulos nacionais relacionados com essa competição.

    No primeiro ponto, todos saem a ganhar com o reconhecimento da prova, incluindo as 3 equipas que venceram a prova uma vez, o que significa que reconheceríamos 3 novos Campeões Nacionais no Marítimo, Olhanense e o Carcavelinhos que, apesar de não existir com esse nome, fundiu-se com outra equipa e deu origem ao atual Atlético Clube de Portugal. O Belenenses seria 4x Campeão Nacional, a 4ª equipa mais titulada em Portugal. O Benfica mantinha o atual número de títulos, o que significa que não seria afetada por esta mudança. O Porto obtinha mais 3 títulos em comparação com os que tem agora e o Sporting obtinha mais 4 títulos. No segundo ponto, decidimos deixar antigas competições extintas para trás e não adicionar títulos extra daqui para a frente.

    Este cenário que proponho, no primeiro ponto, não prejudica nenhuma equipa, dá reconhecimento a uma prova que detinha o prestígio da atual Liga Portuguesa antes da criação desta mesma e elege 3 novos Campeões Nacionais.

    Considero que, de um ponto de vista objetivo, a situação atual não faz qualquer sentido e eventualmente terá de ser alterada, e quando isso acontecer, espero que o primeiro ponto seja o escolhido. Qualquer objeção a este ponto de vista leva-me à conclusão que muitas pessoas preferem estilo a substância, isto é, olham aos formatos das competições e não ao seu valor real. As competições mudam, a Taça dos Campeões Europeus foi disputada a eliminatórias durante muito tempo mas, mesmo com o seu formato a ser alterado várias vezes, e até vai mudar novamente para a próxima época de 2024/2025, até o seu nome já mudou, mas o valor da competição continua lá e ninguém o questiona. Sei que não são situações exatamente iguais e contexto é importante, por isso é que o providenciei ao longo do texto para expressar a minha opinião.

    A única oposição que já observei parece ser de adeptos benfiquistas ferrenhos, uma minoria, que preferem ver a sua equipa por cima de tudo e todos, onde a verdade desportiva não interessa, apenas interessa vencer a todo o custo. Novamente, não estou a acusar a equipa do Benfica nem os seus adeptos, apenas aqueles que escolhem ignorar o mérito do que aqui é discutido, quer sejam do Benfica ou de qualquer outra equipa. Menciono o Benfica porque foi quem saiu beneficiado da Liga Experimental valer o mesmo de um Título Nacional, e parece que cada vez que o tema do Campeonato de Portugal é mencionado, os maiores opositores estão relacionados com a equipa, o que não faz sentido para quem quer que a verdade desportiva prevaleça. Compreendo pontos de vista dentro dos dois pontos referidos anteriormente, mas ficar tudo como está não faz sentido, com isso é que não concordo por completo.


    Deixo aqui o vídeo que me introduziu a este tema. É antigo, de 2016, mas é uma ferramenta útil, ao colocar uma série de fontes relevantes relacionados com tudo o que aqui falei e no qual eu me inspirei para escrever este texto. É também de um adepto do Sporting, mas revejo-me na posição defendida.


- Miguel Caetano Caeiro

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