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A mostrar mensagens de maio, 2026

Na minha cabeça II

Prisão perpétua de existência Estar preso com os próprios pensamentos Tentar fazer sentido de alguma coisa É fundamentalmente desimportante Tentar perceber quem sou Porque sou como sou Será que sou quem penso que sou Penso sequer que sei quem penso que sou? Se existe algum tipo de divindade Um ser criador de todos os seres Tenho muitas perguntas, sem dúvida Pois parece ter um sentido de humor único Mas não acredito que me possa esconder assim Atrás da ideia de um deus me ter criado assim Posso só ter nascido assim E é por isso que sou assim Apenas e só um mero acaso Uma má sorte da lotaria genética Um pobre coitado sem controlo Mas não, não me quero esconder desta forma Todos os dias tenho a oportunidade de mudar De ser quem quero ser, ou que penso querer ser Confiante, destemido, sociável, atraente A ideia da pessoa perfeita, que todos iriam gostar Contudo, não é só estalar os dedos e já está Mudança, sobretudo num ser humano, demora tempo Se é que chega sequer a funcionar, a tomar ef...

Inspiro

Inspiro o ar solenemente Miro o campo invadido de luz Traz-me calma à mente Junto com o calor que induz Quente o verão do Alentejo Saudades traz do inverno Não é o frio que desejo Mas não tanto o inferno Contudo não o trocava Por mais ameno que o desejava É uma característica inestimável De um valor indubitável Campo de cores douradas Seguindo o sol de faces viradas Uma única árvore no horizonte Nada na miragem que a afronte - Miguel Caetano Caeiro

Forqueza

Aquilo que nos deixa mais vulneráveis Inseguranças mais memoráveis Pretendemos tudo esconder “Fraquezas” que nos põem a arder São estes os elos da humanidade Os pontos que formam a irmandade As fraquezas são o que nos unem Por mais que estas nos importunem O fracasso está sempre garantido Mas é um medo permanente É o que nos motiva ao pretendido E o que nos acolhe eternamente Aquilo que julgamos ser o que nos separa É exatamente aquilo que mais nos une As nossas inimagináveis individualidades São as nossas infinitas fronteiras de possibilidades As nossas limitações são a força maior Aquela que nos compele à união Como um íman que nos atrai uns aos outros Uma atração inevitável que nos completa - Miguel Caetano Caeiro

Imaginação

Ofuscante perspetiva global Visão de amores sem igual Limitada vertente da afeção Estagnada a imaginação Mente impregnada de ausência Sob o vazio dessa influência Lastimável défice de ilusão Falta desmedida ambição Vida vivida numa página lida Lida a vida duma página vivida Mais viver ou sonhar mais? Ou sonhar poder viver o que se pode jamais? - Miguel Caetano Caeiro

Eterno Sonhador

Viver a pensar no futuro Num amanhã melhor Num mundo cheio de esperança Mas dura é a realidade Algo há que eu procuro Não encontro em meu redor A minha mente não descansa Da ansiedade à saudade Viver a pensar no passado Num ontem melhor Num mundo cheio de otimismo Mas dura foi a realidade De nostalgia fui afogado Haverá destino pior? Memórias que escondem um abismo A marcha do tempo que tudo invade Resta-me o presente Mais parece que pouco vivo Não há tempo para mergulhar em tudo Estou sempre onde não quero estar Estarei sempre ausente? Será que me privo? Porque sempre me desiludo? Nunca chego onde quero chegar Triste é aquele que vive Sem chegar a viver Ter saudade de um passado Que nunca vai voltar Desperdiçar um presente Que não vai reaver E assim esperar por um futuro Destinado a nunca acontecer - Miguel Caetano Caeiro

Ó Cante

Cante reino do Alentejo Nem sempre te percebi Nem sempre te senti Diferente agora eu te vejo Ó cante, agora que te canto Agora que te canto eu vejo o encanto Ó cante, agora que te canto Agora já percebo o teu recanto Cante cantado, cante sentido Nos teus versos algo persigo Cante sentido, cante cantado Nas tuas estrofes encontro abrigo As tuas melodias inspiram Paz, serenidade As tuas rimas previram Eterna verdade - Miguel Caetano Caeiro

Noite

Inevitável parte da jornada Sigo o sol para chegar até ti Presença tua eu nunca resisti Sorte a minha que és predestinada Envolves a terra de luz serena Todos embalas com a tua calma Tu és aquela quem logo me acalma Tens em mim uma presença terrena Quando vais, deixas em mim dor causada Sabes disso pois nunca te menti És um ritual de peso, sagrada És tu quem ordena, quem me condena Quando me debato sobre a minha alma Porque és sempre tu, ela quem me acena - Miguel Caetano Caeiro

Na Procura

Amor por ele me rendo Diz-se que tens de esperar Para te encontrar Mas por tal eu não me prendo Há muito me escapa Quero ir à procura Pois nada mais me dá cura Coração derrapa Quero procurar destino Entender por isso Que é nisto que eu rumino Mais nada atenua O vazio cá de dentro Sigo para a lua - Miguel Caetano Caeiro

Pescador da Lua

Pescando da luz fluorescente Mira o lago de cores candentes Incríveis luzes incandescentes Refletem nos seus olhos de discente Pesca bem, bem lá no alto Sente-se só, persegue conforto Procura-se a si, aos seus fragmentos Partes de um todo, misteriosos artefactos Escolha curiosa, pescar aqui Nesta bacia de corpos estelares Onde toda a vida flui Uma galáxia de existências ímpares Procura-se a si nos olhos de outros Incapaz de aceitar aquilo que vê Quer ser um eu todo Não quer ser aquilo que é Veio pescar peixe com a sua cana Mas não trouxe isco para o anzol A sua vontade não é tirana A sua moralidade é o farol Não quer tirar o peixe do mar Aflito da dor que lhe iria causar Rejeita o seu egoísmo consumar E ter de viver com esse pesar Preferia ser ele a entrar na água Viver com o peixe dentro do mar E ser ele a inevitavelmente asfixiar Apenas mais uma mágoa Por isso fica lá no alto, bem lá sozinho A fingir que pesca, nos pensamentos perdido À procura de alguém, à procura de algo O que é el...

Naus

Ondas batem e rebatem na proa Água domina todas as direções, Vento sopra forte do nordeste Chuva cai sem misericórdia. Naus à ordem da coroa Tripulação repleta de aspirações, A ambição fica no oriente Não há espaço para tragédia. Estabelecer uma rota é prioridade Pela costa africana até ao Cabo, Lançados no Atlântico à volta do mar Rumo à terra das especiarias. Partiram em março da grande cidade Para se deslocarem pelo globo E um novo caminho firmar, A rota das Índias. Os ventos extraviaram a frota E esta avistou terra nova Pouco mais de um mês no mar. Já em plena primavera Atracaram na bela costa E interagiram com a população nativa. Primeiro contacto sem antagonizar O povo indígena que lá vivera. Foi feita missa para celebrar A ocasião especial. Primeira impressão não violenta, Assim voltaram para a maré navegar. Mas não era para durar O estilo de vida até aqui habitual, Da próxima vez que aparecesse uma frota Era para o povo local subjugar. - ...

Ciclo

Questão pelas profundezas Vontade firme e hirta Corrompidas as pretensas Dúbias de vontade coberta A passagem a Belzebu Repleta de intenções boas Sem dúvida um tópico tabu Os delitos feitos das proas Desbravar as tempestades Em busca de um futuro melhor Perdoadas as maldades Em nome de um senhor Pregadas as palavras antigas Propagadas por terras novas Legados repletos de chagas Heranças solamente de trevas Navegar ao sabor do vento Bandeira no alto do mastro Uma vida melhor dava alento Aos marinheiros usados de lastro Homem mata homem Animal mata animal Vidas atiradas à desordem Pelo bem material Povos igualmente subjugados Um conquista outro é conquistado Detalhes destas são sórdidos Não será isto depravado A nobreza rejubila O clero vira a face A realeza assim instila Um inevitável desenlace Poder fica nos ricos Consequências nos pobres Opressores reprimem oprimidos Agredidos convertem-se agressores - Miguel Caetano Caeiro

Nada sei

Com a existência do eu surge a arrogância O formar de pensamento que nos torna soberbos Releva-se a humildade para balancear a bazófia O encontrar de uma resposta é só o começo O caminho para o conhecimento é interminável O fim do mesmo eu desconheço A superficialidade é fácil e perigosa Não nos podemos contentar com tão pouco A chave está na ignorância virtuosa Perceber que o caminho para a sabedoria é vasto E com ele o primeiro passo É interiorizar que o ser humano não nasce inato A resposta a uma pergunta gera novas dúvidas Uma multiplicação recursiva da compreensão Um ciclo infindável de curiosidades determinadas Desconstruir o conhecimento na sua totalidade Aceitar que o todo saber não é exequível Fundamental na incessante luta oposta à vaidade - Miguel Caetano Caeiro