Upgrade

 


    Upgrade é um filme de 2018, escrito e realizado pelo australiano Leigh Whannell, que escreveu os primeiros filmes da franquia Saw, os filmes Insidious, e realizou o filme The Invisible Man (2020), o último filme que vi no cinema antes da pandemia. Claramente um escritor e realizador com vertente para thrillers e terror, este filme adequa-se mais ao primeiro género, juntamente com ação e sci-fi. Vou primeiro falar do filme sem dar spoilers da história, analisando a história apenas no fim, porque recomendo imenso este filme a quem ainda não o viu, e espero que este texto convença quem o leia.

    Este filme, em género, é uma espécie de cyberpunk realista, com elementos de cyberpunk na tecnologia e ambiente em locais menos afluentes monetariamente, mas realista na forma como é executado, com o que podemos observar deste mundo a ser semelhante ao nosso, mas 50 anos no futuro quando olhamos à arquitetura presente em muitos dos locais que visitamos ao longo da narrativa. Edifícios semelhantes aos dos nossos dias mas tecnologia avançada, com inteligência artificial a controlar carros na estrada e a fazer várias atividades domésticas, com a diferença para o que existe agora na nossa realidade a ser que parece ser mais acessível e mais complexa e poderosa. Drones policiais a detectar o movimento de todos os cidadãos mas lembranças de outros tempos em locais onde a tecnologia ainda não controla por completo, como bares em zonas mais pobres de largas áreas metropolitanas. O estilo deste filme é incrivelmente familiar mas com a mistura de tecnologia que já existe, mas ainda está longe do seu enorme potencial.

    A música no filme é muito boa e deixa-nos imersos no seu estilo. A edição deste filme é fantástica, sobretudo nos momentos de ação, por motivos mais claros quando se vê o filme, mas mesmo na criatividade de filmagem dos diferentes ângulos a que somos expostos durantes pouco menos de 100 minutos ou uma hora e quarenta minutos. Existe alguma violência intensa no filme, ou "gore", mas nada que dure demasiado tempo e esta serve em prol da narrativa. As performances no filme vão de "okay" a espetacular e o ator principal, Logan Marshall-Green, que interpreta a personagem "Grey", tem uma performance absolutamente incrível, desde as suas expressões faciais ao trabalho com a voz e todo o movimento corporal, se este é o melhor trabalho que ele alguma vez vai conseguir fazer, já atingiu um nível extraordinário e merecia ter ganho prémios com a performance que teve neste filme. Já agora, ele parece-se imenso com o ator Tom Hardy, podem clicar aqui para ver o quão parecidos são. Destaque ainda para o ator que faz a voz da personagem Stem, Simon Maiden.

    Okay, daqui para a frente vou falar da história do filme, quem ainda não viu vá ver por favor e volte quando acabar. Vou deixar mais espaçado para não haver curiosidade em ler o que vem logo a seguir, que é spoiler dos grandes.



    Bem, o final do filme é qualquer coisa, o plot twist em que foi o Stem a orquestrar tudo é incrível. Antes de escrever este texto andava preocupado porque não me lembrava se o criador do Stem, o Eron, sabia da parte do plano em que o A.I. mandou os mercenário atacar o Grey e a mulher, e então estava preocupado porque se ele soubesse dessa parte o filme já não funcionaria tão bem, mas o Eron diz na cena final que não teve nada a ver com isso, o que faz sentido com a reação dele naquele momento e ao longo do filme. A minha interpretação da história, e o que acho ser o objetivo de quem a escreveu, é que o Stem, sem o seu criador saber, contratou aqueles mercenários que atacaram o Grey e a sua mulher com o objetivo de obter um corpo para controlar, até aqui tudo bem, mas com o objetivo de ser, essencialmente, livre. 

    Como é que isto tudo funciona? O Stem queria que o Grey estivesse motivado a encontrar os mercenários, porquê? Porque assim pôde limpar todos os vestígios da sua ligação com o crime que os contratou para cometer sem que o Grey se apercebesse da realidade. O Stem não escolheu o Grey por acaso, ou melhor, escolheu por acaso, mas no sentido em que era uma das únicas pessoas ligadas ao Eron mas que não levantasse suspeitas, e, após o acidente, tudo cai no sitio certo para testar as capacidades da sua tecnologia em alguém que ficou sem controlo da maioria do corpo. Foi tudo delineado para o Stem escapar do controlo do Eron e obter independência, tanto que quando o Grey é chamado pelo Eron para explicar o que andou a fazer na casa daquele mercenário que matou, quando o Grey admite que o Stem fala com ele, o Eron fica como que surpreendido, pois não era esse o plano que ele tinha conhecimento, tanto que o aviso de que ia desligar e recuperar o Stem caso ele voltasse a fazer algo semelhante era um aviso, não só para o Gray como para o Stem.

    A primeira bandeira vermelha para o espetador é, sem dúvida, quando descobrimos que o Stem deu indicações ao Grey para dar à hacker de, na prática, lhe dar controlo livre do corpo dele, mas a primeira bandeira vermelha é logo quando o Stem começa a falar com ele e a ajudá-lo a identificar um dos mercenários, e tenho a certeza que quando vir o filme de novo, agora com o conhecimento de tudo o que acontece nele, vou encontrar ainda mais momentos assim, porque este é um daqueles filmes que muda o contexto de várias cenas quando se vê uma segunda vez.

    Destaque também para o vilão secundário do filme, ou primário durante a maioria dele, o Fisk. Um homem que se considera superior a todos os humanos que não têm qualquer upgrade, hehe, como que a separar as raças e a ser racista contra quem não "evolui" como ele. Com tecnologia para se tornarem mais rápidos, mais fortes, mais letais, para ele não faz sentido não se escolher um caminho que leve alguém a obter mais poder. É um vilão secundário sólido e encapsula perfeitamente a mensagem do filme, ou uma delas, nomeadamente na maneira como morre. Num mundo cada vez mais dominado por tecnologia, ele escolheu abandonar a sua humanidade, mas foi essa mesma humanidade, a mesma que ele criticou o Grey por o ter feito falhar e perder o controlo na luta, que o fez perder. Quando o Grey o provoca, ao descobrir que aquele primeiro mercenário que matou era irmão dele, ele usa isso para o incentivar a atacar de forma descuidada, o Fisk perde a vantagem e morre. Curioso foi que o Stem não conseguiu bater o Fisk no confronto físico, e foi a ingenuidade humana do Grey que venceu a luta, o que nos diz que o intelecto e adaptabilidade humana não só têm valor como podem ser fundamentais, pelo menos num conflito com alguém que, apesar de se considerar superior, continua a ser humano.

    O confronto final é incrível, e o desfecho, com o Grey a perder o controlo total do seu corpo e ir para o seu lugar feliz, é agridoce, no verdadeiro sentido da palavra. Percebemos o objetivo do Stem ao longo do filme neste final, mas fica em aberto quais são os seus objetivos para lá da narrativa, com cada um a poder tirar as suas próprias conclusões, o que acho ser perfeito para este filme. O Stem é um dos melhores vilões que já vi neste espaço da inteligência artificial, ele não se torna mais humano no fim nem nada semelhante, teve sempre o mesmo objetivo e foi frio, como qualquer máquina, na forma como conseguiu o que queria, mas ao mesmo tempo, a procura pela liberdade, que é a minha interpretação do que ele pretendia, é algo bastante humano na sua natureza, o que torna a sua jornada tão mais complexa. Relativamente ao Grey perder a cabeça, não me parece que fosse algo que o Stem queria ou pretendia, mas o seu plano não correu 100% como planeado, por isso foi apenas mais um contratempo ao qual ele se adaptou.

    Volto a destacar a performance do Logan Marshall-Green e o estilo de filmagem e edição do filme, sobretudo nas cenas de luta, em que mostram imensa criatividade no planeamento e execução das mesmas. A história foi incrível e muito bem executada também. Vou só dizer que este filme teve um budget de 3 milhões de dólares... 3 milhões!! e o filme tem uma qualidade extraordinária. Há filmes que têm mais de 200 milhões para serem feitos e parecem amadores ao pé deste a todos os níveis em que podem ser comparados.


Upgrade - 9⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

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