Civil War


    Civil War é um filme que foi lançado em Abril de 2024 e que fui ver ao cinema. O filme foi realizado por Alex Garland, que realizou o filme Ex Machina, mas que ficou mais conhecido por escrever vários jogos da franquia Devil May Cry e do filme 28 Days Later. Este filme conta com Kirsten Dunst, que ficou conhecida pelo seu papel como Mary Jane na trilogia de filmes do Homem-Aranha de Sam Raimi, e Wagner Moura, que ficou conhecido pelo papel de Pablo Escobar que interpretou na série Narcos, grande série e grande performance do brasileiro. Os outros atores principais neste filme são Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson, com destaque para Nick Offerman que faz de presidente dos Estados Unidos, não é uma personagem muito relevante mas decidi destacar pelo ator que é.

    O título do filme engana, já que o filme se passa numa guerra civil de facto, e esta é nos Estados Unidos, mas o filme é verdadeiramente sobre jornalismo, uma relação de mentora-aprendiz, a perda da inocência e o facto de que a guerra, a guerra nunca muda. E nem estamos no universo do Fallout para usar esta linha. O filme segue a Lee, jornalista de guerra interpretada pela Kirsten Dunst, a fotografar momentos desta guerra em conjunto com o Joel, Wagner Moura. Conhecemos também Sammy, uma espécie de mentor amigo destes dois. A Jessie é a última peça do puzzle, uma jovem que quer entrar neste mundo e vê a Lee como uma heroína sua. Estes quatro vão então fazer uma road trip até D.C., capital do país e local onde está o presidente, numa fase em que a guerra está quase a acabar e o governo está prestes a perder.

    Não se deixem enganar, não há história neste filme. As cenas de combate são excepcionais, em conjunto com os efeitos especiais a atmosfera deste filme é incrível, uma vez que o começas a ver és sugado para dentro do ecrã. Visualmente este filme está excelente, a todos os níveis técnicos mesmo é difícil encontrar um ponto negativo. É na história que sinto que este filme não alcança o seu potencial, porque eu gosto das personagens e da performance dos atores presentes. A Lee é uma pessoa apática, marcada por tudo o que viu ao longo da sua carreira, capturou na sua câmara o pior da humanidade, já nada a surpreende nem afeta, pelo menos não da mesma maneira que a afetaria quando começou a fazer o que faz. A Jessie, jovem fotógrafa que quer entrar neste mundo, é essencialmente a Lee, quando esta começou a sua carreira, mostrando o contraste de quem ela já foi e quem é agora. Estas duas personagens desenvolvem então a relação de mestre-aprendiz, com a Jessie a perder a sua inocência ao longo do filme, consoante as atrocidades que vê durante a viagem.

    Este filme tem momentos verdadeiramente tensos, com uma vibe quase de terror, o que faz sentido tendo em conta a carreira deste realizador, já que este escreveu o filme e é conhecido por trabalhos dentro desse género. Destaco a cena com o Jesse Plemons, ou o Todd do Breaking Bad, que ator fantástico e que cena fantástica.

    Não chegamos a obter contexto sobre o porquê da guerra estar a acontecer, como começou, quais são os lados e por quem devemos torcer, porque não é esse o objetivo deste filme, para mim este filme é uma carta de amor ao jornalismo de guerra, uma homenagem a estas pessoas que arriscam a vida para nós sabermos aquilo que se passa nos locais mais perigosos do mundo. Ao mesmo tempo é, também, um filme anti-guerra, como qualquer bom filme de guerra o é. O contexto é então irrelevante, contudo, considero que as personagens deviam ter sido mais cozinhadas, deviam ter ficado mais tempo no forno, sinto que não existe um grande investimento pessoal das personagens para estarem nesta situação. Ok é uma guerra civil no seu país, ok querem obter uma entrevista com o presidente antes do fim da guerra. São motivos muito impessoais, não existe nada direto que faça as personagens continuar. Suponho que posso ver isto como o exemplo real de jornalistas na nossa realidade a arriscarem as suas vidas para nos manterem informados, mas num filme sinto que não chega, ou pelo menos podia ser melhor.

    O fim do filme vê a Jessie, por esta altura já calejada com tudo a que assistiu até aqui, chega a D.C. com um certo entusiasmo, com esta a começar a prestar menos atenção ao que a rodeia na procura das melhores fotografias, do melhor ângulo, ao mesmo tempo que Lee começa a ter ataques de pânico, relevante mencionar que Sammy, uma espécie de mentor para ela, tinha morrido não muito tempo antes. A Lee acaba por salvar a Jessie nas últimas cenas do filme, sacrificando a sua vida no processo. É o passar do testemunho, é a morte da velha guarda, é um ciclo sem fim, é a guerra, e a guerra nunca muda, não interessa como, nem onde, nem quais são os intervenientes, a guerra é sempre a mesma coisa, é um inferno. Tudo isto para dizer que o fim não bateu bem desta maneira, faltou um pouco mais de pujança, mas deu para entender o espírito da mensagem.

    Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny e Stephen McKinley estão todos muito bem neste filme, o Nick Offerman só aparece no início e no fim, uma pena porque é um belo ator. Como já disse, eu gosto das personagens e só tenho pena de não passarmos mais tempo com elas, a aprender um pouco mais sobre todas, num filme com excelente ação, fiquei com pena de não ver as personagens a interagirem mais umas com as outras e de não existir mais tenção pessoal daquilo que acontece às personagens ao longo do filme. Sinto que não fiquei bem a conhecer ninguém, mas gostava de ter conhecido.

    A todos os níveis este filme é muito bom, tirando aquilo que já mencionei. Entrei no cinema sem expectativas e saí impressionado, ainda que com a ideia de que existia potencial para ter sido ainda melhor, não por algo que esteja mal feito, mas por algo que podia ter sido melhor. De qualquer das formas, recomendo qualquer pessoa a ver este filme, consegue ser pesado em vários momentos, mas não mostra nada mais do que aquilo que seres humanos bem reais são capazes de fazer no mundo real, é incrivelmente atmosférico e tenso.


Civil War - 7⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

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