Gladiator II

    Gladiator II é uma sequela do lendário filme de 2000 Gladiator com Russell Crowe, ou Gladiador para nós portugueses. Este segundo filme passa-se à volta de 16 anos após a morte de Maximus, onde seguimos uma personagem chamada Hanno, um soldado do reino de Numídia, atualmente a região da Tunísia, Argélia e Líbia, no norte de África. O filme foi realizado por Ridley Scott, com o lendário realizador a voltar para a sequela.

    Como é óbvio, este é um filme com bons efeitos especiais e visuais, boa música, enfim, é um filme bem realizado, essa parte não tem qualquer problema. Toda a parte técnica é sólida, no mínimo. A própria batalha inicial, em Numídia, é impressionante e bem coreografada, mostrando a força naval do Império Romano, que ataca uma cidade naval com grandes muralhas. É uma sequência muito bem conseguida e um dos melhores momentos do filme. Mas a narrativa é sempre a parte mais importante de um filme, ou pelo menos costuma ser assim na maioria dos casos. E este filme sofre pelo facto de ser uma sequela de um dos melhores filmes de todos os tempos. É uma verdadeira montanha para escalar, e posso dizer que o filme não foi tão mau como esperava, aliás, até diria que foi bom, mas nada de especial comparado com o primeiro, uma comparação que é inevitável, sendo este filme, digam comigo: uma sequela.

    Spoilers daqui para a frente. A história segue Hanno, que é na realidade Lucius Verus Aurelius, filho de Lucilla e... Maximus Decimus Meridius. Exato, o Maximus teve um caso com a Lucilla e tiveram o Lucius. No primeiro filme nunca foi necessariamente insinuado que estes tinham tido qualquer relação mais profunda, mas a sequela abraça esta ideia de braços abertos. Não acredito que fosse necessário fazer de Maximus o pai de Lucius, mas assim foi a escolha dos guionistas. O Lucius foi imediatamente exilado pela mãe, de forma a que este não fosse morto por rivais políticos após a morte de Commodus, prometendo que ir procurá-lo mais tarde. Foi assim que ele foi parar à Numídia, e é neste território que começa o filme. Só tomamos conhecimento desta informação mais tarde no filme, durante o segundo ato.

    O Lucius é capturado após a batalha inicial, com os romanos a saírem vitoriosos, sendo levado de volta a Roma. Daqui para a frente ele torna-se gladiador, impressionando Macrinus, um lanista, isto é, uma pessoa que comprava e treinava gladiadores. Esta é a personagem de Denzel Washington, definitivamente um dos melhores elementos do filme. Daqui para a frente é difícil manter uma linha de raciocínio sobre todos os eventos que decorrem, por isso vou só tocar nos pontos mais importantes. Lucius impressiona o Macrinus, com este a perceber que Lucius é alguém importante, com um nível de conhecimento suspeito para um soldado de Numídia, além da aparência romana. O Lucius tem como objetivo matar o general que atacou a sua casa, Acacius, interpretado por Pedro Pascal, com o Macrinus a prometer-lhe uma oportunidade para o fazer, desde que este continue o bom trabalho.

    Com o passar do filme, o seguinte acontece: Acacius e Lucilla pretendem executar uma revolução contra os imperadores Geta e Caracalla, o Macrinus eventualmente descobre e conta aos imperadores, Lucilla e Acacius são presos e serão executados na arena, o Acacius enfrenta o Lucius, que por esta altura já conversou com a Lucilla mas a conversa acabou mal, o Acacius não perde a luta mas rende-se ao Lucius e este escolhe não o matar, com os imperadores a darem a ordem a todos os arqueiros para disparar sobre ele, com todos a acertarem em cheio. Não estou a brincar, todos os arqueiros na arena acertam no Acacius, são o inverso de stormtroopers, inacreditável. Continuando, o Macrinus admite ao Lucius que quer ver Roma arder, o que o leva a influenciar os imperadores um contra o outro, matando mesmo o Geta, com o plano de se desfazer de Caracalla mais tarde. Lucius vollta a conversar com a sua mãe e desta vez a conversa corre melhor, é também a última vez que falam um com o outro, pois ela acaba por ser morta por Macrinus na arena, numa altura em que Lucius tinha convencido os outros gladiadores a revoltarem-se e estavam em guerra aberta com os soldados romanos, sendo aqui também que Caracalla é morto por Macrinus, com este a fugir e Lucius a segui-lo, ambos em cavalos.

    Ok, sei que foi muita informação até aqui, sem grande contexto para ajudar, mas se querem saber mais vão ter de ver o filme. Agora, é importante referir que nesta parte final do filme o Lucius pediu a um amigo, uma espécie de médico ex-gladiador, que levasse o seu anel, um anel que comprova a sua existência, a um oficial que comanda 5000 soldados, confiado por Acacius, para marcharem sobre Roma para tomar a cidade e controlar o império, plano original do Acacius e Lucilla, por esta altura mortos. O plano é bem sucedido e leva-nos exatamente ao fim do filme, com esse exército a chegar a Roma, que tem à volta de 6000 soldados para se defender contra os 5000, com uma batalha a parecer agora inevitável. Macrinus e Lucius lutam, com o herdeiro do trono a levar a melhor sobre o lanista, que acaba morto às portas de Roma. Um discurso depois, e o império está de novo unido, sobre o comando de Lucius Verus Aurelius, neto e herdeiro de Marcus Aurelius Antoninus.

    A história é perfeitamente razoável, sólida até, mas nada do outro mundo. A todos os níveis, este é um bom filme, mas sofre do que eu já falei anteriormente, que é o facto de ser uma sequela de um dos melhores filmes de sempre. Na minha opinião, pois claro. Tem um grande realizador, Ridley Scott, que não tem um portfólio muito bom em anos recentes, com o filme Napoleão a ser um dos maiores flops que eu já assisti no cinema. Já era para ter falado do filme, mas não encontro a motivação para o fazer, pois desapontou-me em vários níveis. Lá está, a nível técnico é um filme perfeitamente aceitável, mas a narrativa arrasta o filme para o fundo do barril, não fosse o facto de ser bem realizado e de ter bons atores, teria uma nota negativa. Sei que não foi ele a escrevê-lo, foi o David Scarpa, um dos escritores deste filme, mas ele foi produtor e teve de assinar e concordar com a história apresentada. Ok, respirar fundo e lembrar que estou a falar do Gladiador 2 e não do Napoleão que disparou sobre as pirâmides do Egito... Jesus Cristo.

    Paul Mescal tem uma performance sólida, mas nunca é fácil interpretar o filho de uma das personagens mais memoráveis da história do cinema. Pedro Pascal faz, como sempre, um bom trabalho, tal como o Denzel Washington, que traz o seu habitual carisma e charme para o seu papel, e Connie Nielsen regressou para o papel de Lucilla. Todos os atores, em geral, têm performances no mínimo razoáveis senão boas. Destaque para a aparição do Peter Mensah, ator que já está habituado a estes papéis na Roma Antiga, tendo participado na série Spartacus, onde era um lendário gladiador e treinador de gladiadores. Era o líder de Numídia e morreu logo no início do filme, mas é sempre bom vê-lo no grande ecrã.

    Nota final é que este filme surpreendeu-me pela positiva, no sentido em que não foi um desastre. Agora basta esperar pelo terceiro filme, que está mesmo para vir daqui a uns anos. Importante também dar graças ao facto de não terem ido para umas ideias de viagens no tempo que se tinha falado há uns anos atrás. Sim, viagens no tempo nos filmes do Gladiador. Este mundo às vezes é estranho, mas não tão estanho.


Gladiator II - 6⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

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