The Walking Dead: Jogos da Telltale Games

 

Vou falar sobre os seguintes jogos (os links levam a playlists minhas no YouTube, com gameplay de todos os jogos completos, sem comentário):

- The Walking Dead: Season One + 400 Days (2012-13)

- The Walking Dead: Season Two (2013-14)

- The Walking Dead: Michonne (2016)

- The Walking Dead: A New Frontier (2016-17)

- The Walking Dead: The Final Season (2018-19)

    Antes de começar a abordar cada jogo individualmente, é importante falar sobre alguns pontos que eu considero relevantes na "análise" a estes jogos. A minha avaliação foca-se na qualidade da narrativa acima de tudo, já que estes jogos não são propriamente ricos em gameplay, por isso, como o gameplay é limitado, o peso cai, e muito, sobre a qualidade da história que está a ser contada, quase 100% mesmo. Importante também referir que joguei a todos os jogos, com exceção do último, na coleção The Walking Dead: The Telltale Series - Collection.


The Walking Dead: Season One (História da Telltale Games)

    Este jogo foi o que lançou a Telltale para a luz da ribalta, e por um bom motivo. Este é um dos melhores jogos de sempre. Ponto. É também um dos mais vendidos de sempre, com 28 milhões de cópias vendidas. O sucesso foi incrível e completamente justificado, com o jogo a ganhar o prémio "Jogo do Ano" em 2012, no Video Game Awards, com a Telltale a vencer o prémio de melhor estúdio, além de terem ganho mais alguns prémios. Tudo isto para dizer que a recepção foi, digamos, no mínimo, positiva.

    O jogo tem como personagem principal Lee Everett, um homem que estava a caminho da prisão no dia em que o apocalipse aconteceu. Porquê? Matou o homem com quem a sua mulher o traiu. Após o acidente que o libertou, viu-se forçado a matar o polícia que conduzia esse carro, pois ele tornou-se num "walker", termo para zombie neste universo. Poucos minutos depois disto, encontra Clementine, uma pequena menina de 8 anos que estava sozinha em casa, ou melhor, na sua treehouse, no quintal da sua casa. Descobrimos que os seus pais estavam fora numa viagem e que, muito provavelmente, já estavam mortos pela altura em que estamos a ouvir as mensagens no gravador. Daqui para a frente, o Lee torna-se no protetor da Clementine e, no fundo, no seu novo pai. Os temas do jogo são relacionados com segundas oportunidades e paternidade no fim de um mundo e começo de outro.

    Este é o contexto inicial das duas personagens mais importantes da história. Pelo caminho encontramos personagens memoráveis, como o Kenny, a Lilly, a Carley, entre muitas outras, com estas em específico a serem introduzidas no primeiro episódio. Falando neste primeiro episódio, no final do mesmo temos uma enorme decisão a tomar, relativamente a duas personagens e aos seus destinos. A escolha baseia-se entre salvar a Carley ou o Doug, o que me leva a um ponto importante sobre os jogos da Telltale em geral, a verdadeira importância das escolhas do jogador.

    Eu sei que no início de cada episódio aparece uma frase no ecrã que diz o seguinte, traduzido para português: "Este jogo adapta-se às escolhas que tu tomas. A história é talhada da forma que jogas." Existem várias maneiras de interpretar estas duas frases, a mensagem que pretende ser transmitida com esta declaração. Eu interpreto segundo a ideia de que, apesar de certos acontecimentos ocorrerem sempre, independentemente das tuas escolhas, a maneira como lá chegas é personalizada, diferente de jogador para jogador. Digo isto devido à minha experiência a jogar jogos da Telltale, sendo que já joguei onze jogos diferentes, ou dez da "antiga" Telltale, e um da "nova" Telltale.

    Um pequeno aparte para dar contexto à frase anterior. A Telltale Games fechou portas no fim de 2018, enquanto lançavam a última temporada destes jogos, que vou falar mais tarde. Uma nova Telltale foi criada em 2019, com o nome por trás a chamar-se LCG Entrertainment. O fecho da Telltale foi caótico e o resultado de uma gestão danosa e gananciosa por parte de quem geria o estúdio, chegando a desenvolver quatro jogos simultaneamente num só ano, obrigando os seus trabalhadores a fazerem, por vezes, semanas de 60 horas, quando já eram poucos para o trabalho pretendido. Mas isto é uma conversa para outro dia e, curiosamente, um tema sobre o qual já falei num trabalho para uma cadeira na universidade. Parece que nunca vou escapar a isto.

    Voltando ao que estava a falar, existem outras interpretações para a declaração que a própria Telltale colocava no início de cada episódio dos seus jogos. Ou melhor, críticas a esta declaração, sendo considerada como falaciosa, ou uma mentira, pois o desfecho da história e muitos dos seus eventos, neste caso específico desta temporada, mas também de outros jogos, é sempre o mesmo. Vamos sempre parar àquele armazém no fim da temporada, a personagem que salvamos no primeiro episódio acaba sempre por morrer no terceiro, o Lee é sempre mordido e não pode ser salvo, mesmo que se corte o braço... Enfim, vários eventos são inevitáveis. Esta é a maior crítica à declaração mencionada. As nossas decisões não alteram verdadeiramente o rumo da história. Vamos analisar isto.

    Considero que tanto a declaração inicial como a interpretação anterior têm os seus problemas. A declaração, de facto, tem aquela qualidade de negação plausível. O que significa isto? Que qualquer interpretação é correta e errada ao mesmo tempo, consoante o que der mais jeito. Fundamentalmente, não existe uma resposta certa quanto à interpretação do que aparece escrito. Sim, eu sei que não é muito inspirador nem conclusivo o que acabei de escrever, mas é a realidade. Por tudo isto é que eu escolho interpretar aquelas duas frases da maneira que faço, pois é a única forma de ser feliz a jogar a estes jogos. Isso e porque acredito que a viagem é mais importante do que o destino. Em jogos no geral, e em particular em jogos da Telltale, onde as nossas decisões podem levar a caminhos diferentes e, por vezes, a desfechos, também eles, diferentes. Não neste jogo, neste jogo o caminho é um pouco mais rígido do que em futuros jogos, mas a história é tão boa, que todos perdoam a rigidez. E no fundo, desde que algo seja incrivelmente bom e de alta qualidade, nós perdoamos as suas falhas, ou imperfeições. Nisto eu acredito.

    Em conclusão, e sem mais rodeios, este jogo é uma obra-prima, e a fundação para os jogos que a Telltale lançou daqui para a frente. Conhecemos o desfecho deste estúdio, mas a viagem até lá proporcionou imensos jogos incríveis pelo caminho, alguns dos quais vou falar já em seguida. Ainda sobre este jogo, os episódios foram lançados ao longo do ano de 2012, cinco no total. Cada episódio dura mais de duas horas, exceto o último, que é a volta de uma hora e meia. É o jogo mais longo que fizeram, se não estou em erro. Houve ainda um sexto episódio que foi lançado, chamado de 400 Days, que não tem relação nenhuma com a primeira temporada, mas sim com a segunda, como que um prelúdio para a mesma. É ok, nada es especial, e como a segunda temporada sofreu muita reestruturação, muito do que foi planeado com estas personagens imagino que tenha sido cortado ou alterado, já que apenas uma delas, a Bonnie, é que tem importância na história. 

Aproveito para destacar os atores de voz deste jogo, com especial destaque para as vozes do Lee e da Clementine, interpretados por Dave Fennoy e Melissa Hutchinson. Performances incríveis dos dois ao longo do jogo, e em particular na última cena que partilham na temporada, não existem adjetivos para aquele momento final entre as duas personagens. Vamos, então, para a segunda temporada.


The Walking Dead: Season Two

    Como já abordei temas importantes ao falar da primeira temporada, daqui para a frente vai ser sempre mais curto. A personagem principal deste jogo é a Clementine, agora sem o Lee, que se encontra com dois membros sobreviventes da primeira temporada, o casal Christa e Omid. O Omid é morto na sequência inicial da temporada, que se passa poucos meses depois do fim da primeira. Passada esta sequência, somos catapultados dois anos para a frente, com a Clementine a ter agora onze anos de idade. Pouco após este salto temporal, a Clementine é separada da Christa, com esta a nunca mais ser vista nesta série de jogos, estando desaparecida ou morta. Com a Clementine perdida e sem ninguém, e estando à beira da morte, tendo sido mordida por um cão e perseguida por walkers, dois homens salvam e introduzem-na ao seu grupo, com a história a desenrolar a partir daqui. Este pequeno grupo, por sua vez, está a ser procurado por um grande grupo, do qual eles desertaram.

    Durante a história a Clementine reúne-se com o Kenny, uma personagem importante do primeiro jogo e que está presente durante toda essa temporada. Nesta temporada surge no segundo episódio, juntamente com outras personagens menos importantes, com nenhuma delas a chegar ao último episódio. O grupo da Clementine e do Kenny estão juntos quando aquele grupo maior, que estava à procura do grupo pequeno, os encontra e captura a todos. Eventualmente escapam, no início do quarto episódio, mas por esta altura a maioria do grupo inicial está morto, e no início do quinto e último episódio apenas uma personagem do grupo do primeiro episódio está vivo, morrendo nesse mesmo episódio, o Luke.

    A maior crítica que se pode atirar a este segundo jogo é que é muito derivativo do primeiro, com a personagem principal a ser introduzida a um grupo, que por sua vez se introduz dentro de outro grupo e, pelo fim do jogo, estão todos mortos, ou praticamente todos. Diria que aí o problema surge mais com o próprio género onde está inserido, que é apocalipse zombie, e também por fazer parte do universo The Walking Dead, pois na série isto acontece várias vezes. Talvez não morram todas as personagens num espaço de tempo tão curto, mas a fórmula é a mesma.

    Enquanto que a maioria do jogo tem uma estrutura rígida, sem grande espaço para alterações nos eventos, talvez até mais do que no primeiro jogo, a realidade é que existem vários finais possíveis. O fim do jogo vê a Clementine forçada a tomar uma decisão, sendo essa a de disparar sobre o Kenny para salvar a Jane ou deixá-la ser morta por ele.  A Jane é uma personagem introduzida no terceiro episódio, quando o grupo foi capturado, sendo uma espécie de prisioneira obrigada a fazer trabalho forçado, como o resto do grupo. Esta é uma grande decisão e está ligada diretamente a todo o percurso do jogador nestes dois jogos, devido à presença do Kenny, uma personagem com a qual se pode ter tido uma boa relação durante o percurso, má ou assim assim, com a psique do jogador a ser posta à prova.

    Quando o jogo saiu, entre 2013 e 2014, lembro-me de gostar muito da Jane e de preferir o final em que a Clementine dispara sobre o Kenny. O porque destes dois estarem a lutar deve-se a um fator que ainda não referi, que é um pequeno bebé recém nascido. A mãe do bebé, a Rebecca, era uma das pessoas que fazia parte do grupo inicial da segunda temporada, com esta a morrer no final do quarto episódio, quer seja pela mão da Clementine, que seria uma escolha do jogador, ou outra personagem. Não sei qual é a outra personagem, já que eu escolho sempre disparar, pois esta torna-se num walker enquanto segura o bebé. Voltando à questão, o Kenny, a Clementine e a Jane separam-se brevemente durante o último episódio, já que estamos no meio de uma tempestade de neve, com a Jane a ficar com o bebé durante poucos minutos. Quando os três se reencontram, a Jane não traz consigo o bebé, sendo presumido que este morreu. Daqui para a frente vou só chamá-lo de AJ, Alvin Júnior. É aqui que o Kenny e a Jane começam a lutar, com a Jane a avisar a Clementine para se manter afastada do que vai acontecer a seguir.

    Após a luta, quer estejamos com a Jane ou com o Kenny, ouvimos o bebé a chorar e descobrimos que o AJ está vivo. Isto muda muito a cena anterior, pois com esta informação descobrimos as intenções da Jane, que queria apenas provar o seu ponto de que o Kenny era instável e volátil. Acredito que ao longo dos anos, a opinião geral acerca da Jane mudou, com esta a ficar muito menos popular, sobretudo quando acontecem certas coisas na terceira temporada, mas já lá vamos.

    Existem vários finais, sendo esses os de salvar a Jane, com duas opções seguintes, sendo essas a de ficar com ela, mesmo sabendo que ela planeou a luta, ou deixá-la para trás e levar o AJ. Se escolhermos o Kenny temos as opções de o matar logo após ele matar a Jane, deixá-lo para trás após descobrir que o AJ está vivo ou continuar com ele. Nesta última opção, temos depois outras duas alternativas, sendo essas a de ficar em Wellington, um settlement teoricamente seguro mas onde apenas a Clem e o AJ podem ficar, ou de continuar com o Kenny e o AJ pela estrada fora, a minha opção predileta.

    Após um final muito restrito na primeira temporada, ainda que seja um dos melhores finais de sempre de um videojogo, temos na segunda temporada muitas opções. Na altura era quase inacreditável pensar na quantidade de finais que este jogo tinha, mas isto também abriu portas a várias críticas sobre a terceira temporada, mas já lá vamos. No geral, a segunda temporada não é tão boa como a primeira, mas é também muito boa à sua própria maneira, com uma atmosfera incrível, o que me leva a um ponto sobre os primeiros dois jogos, a música. A música é fenomenal nestes jogos, com estes primeiros dois a merecerem destaque. A música "Alive Inside" é uma das mais memoráveis, senão a mais memorável desta saga. Tem uma vibe de conforto num mundo desolador que poucas músicas têm.

    Os episódios são ligeiramente mais curtos do que na primeira temporada, rondando abaixo das duas horas, nada de dramático, tendo também cinco episódios na temporada. É importante referir que a Clementine é uma excelente personagem principal, tendo uma transição de menina jovem e ingénua na primeira temporada, para dura e sobrevivente na segunda, absolutamente incrível. É uma excelente protagonista e torna a história ainda mais tensa, sendo que o jogador controla uma jovem rapariga num mundo injusto e assustador, dominado por pessoas cruéis e mortos a comerem pessoas.

    Vamos então seguir em frente e falar nos próximos dois jogos, que não são particularmente populares dentro da comunidade. Não são maus jogos, mas são muito inferiores aos que vieram antes, com a sua conceção a ter problemas fundamentais.


The Walking Dead: Michonne

    Não vou perder muito tempo neste jogo, já que é mais curto, tendo apenas três episódios, e não é particularmente interessante, sendo o mais fraco da saga na minha opinião. A Michonne é uma personagem da banda desenhada original e da série da AMC. Os jogos fazem parte do universo da banda desenhada, logo este jogo é, também, canon no universo da banda desenhada. O jogo segue a personagem após esta ter ficado separada do grupo do Rick Grimes, algo que acontece entre as edições 126 e 139 da banda desenhada.

    A Michonne é assombrada pelas memórias das suas filhas, que devem ter falecido no início do apocalipse, sendo que ela não esteve lá para as proteger. Ela é acolhida por uma tripulação de um barco que navega a costa este dos Estados Unidos. O Pete é o líder e a única personagem minimamente memorável. A história, honestamente, não é relevante e nem vou falar sobre ela, acreditem só que não justifica sabê-la nem jogá-la. Eu devo ser uma das pessoas que mais vezes jogou a este jogo no planeta inteiro, tendo jogado umas quatro ou cinco vezes, por isso confiem só que não justifica perder umas cinco horas da vossa vida a jogar a este jogo. É o mais fraco da saga, de longe, e não tem grande interesse, pois nem sequer está conectado com os restantes jogos. Só quem leu a banda desenhada é que poderá ter interesse no que aqui acontece.

    Foi neste jogo que os gráficos, ou o estilo de design das personagens dos jogos Telltale começou a mudar, e não foi para melhor, posso dizer com todas as certezas. Já era normal usarem várias vezes os mesmos modelos para diferentes personagens e walkers, mas foi a partir desta altura os modelos ficaram ligeiramente mais feios e cansados. Também a música não é nada de especial aqui.

    Posso parecer crítico e este jogo um perfeito desastre, mas nem isso é, é bem pior, é aborrecido. É um jogo perfeitamente medíocre e sem nada de especial nele contido. Só não percebo o porquê de ter sido feito, para lá das partes óbvias, sendo essas a ligação ao material de origem e dinheiro, o que, no fundo, responde à minha pergunta. Vamos seguir em frente e falar da próxima temporada, a que deveria ser a terceira mas mais parece a 2.5.


The Walking Dead: A New Frontier

    Lembro-me de ver as duas primeiras temporadas no YouTube, sendo que na altura não tinha acesso aos jogos, mas tinha acesso à internet e um grande interesse em tudo o que era The Walking Dead. Lembro-me também do quão desapontado fiquei quando vi os primeiros dois episódios da "terceira" temporada, tendo saído os dois de uma vez. Fiquei tão desapontado que não vi mais nenhum episódio e desliguei-me por completo dos jogos, só voltando a tomar atenção em 2018, quando estava a sair a última temporada e a Telltale estava a fechar portas. Na altura comprei a coleção que ainda hoje tenho acesso, tendo já uma PS4, e pude experienciar todos, incluindo este. Se não me engano, acabei por ver a história toda no YouTube mesmo antes de comprar a coleção, ficando com uma imagem menos negativa daquela com que tinha ficado dois anos antes. Esta foi a minha história com este jogo.

    Para começar, o jogo não se chama Season Three, chama-se A New Frontier, o que diz logo muito sobre aquilo que foi o jogo. A personagem principal não é a Clementine, como a maioria dos fãs queriam que fosse, mas sim o Javi, um antigo jogador profissional de basebol que foi banido por apostas ilegais. A Clementine aparece no jogo, mas como uma personagem separada, onde só a podemos controlar uma vez por episódio, em flashbacks da sua história até aqui, que antecedem o jogo. É nestes flashbacks que vemos o que aconteceu após o fim da segunda temporada. O pior, e aquilo a que aludi mais atrás, é que apenas o primeiro flashback, no primeiro episódio, é que tem influência das escolhas feitas durante a segunda temporada, com os restantes a serem todos iguais, com as escolhas anteriores a terem um peso insignificante neles. Todos aqueles finais só para ter uma pequena menção num só flashback da temporada seguinte, com a personagem a ir parar ao mesmo sítio e com nada a ter grande influência no seu destino. Esta foi uma das maiores críticas a esta temporada e, desta vez, estou 100% de acordo.

    Eu gosto do Javi e das personagens à sua volta, com destaque para a Kate, acho que ele é um bom protagonista, mas não percebo porque é que a Clementine não é a personagem principal num jogo inserido numa saga que, no fundo, gira à sua volta. Acho que foi um tiro no pé, mas foi também um sintoma de um problema bem mais grave na forma como os jogos eram produzidos. A questão principal é que este não é um mau jogo, e tem até personagens memoráveis e uma narrativa cativante, mas é uma má sequela, e isso arrasta o jogo bem para baixo a meu ver. A falta de seguimento das escolhas feitas na segunda temporada, em conjunto com uma mudança de protagonista sem qualquer necessidade, mataram o que podia ter sido um jogo fantástico.

    O jogo segue o Javi e a sua família, a Kate, mulher do seu irmão David, que desapareceu no primeiro dia do apocalipse, e os seus sobrinhos Gabe e Mariana. Para resumir muito rapidamente a história, o Javi acaba por conhecer a Clementine, dois anos mais velha, e tornam-se amigos durante o primeiro episódio. A Mariana morre no final do primeiro episódio, sendo morta por um grupo que descobrimos no final do segundo episódio ser gerido, em parte, pelo David, irmão que era presumido morto desde o primeiro dia. A Kate também foi baleada quando a Mariana morreu, e é por isso que vão ter a Richmond, onde está o David. Acabamos por descobrir que A New Frontier, o grupo do David, anda a atacar settlements, tal como fizeram a Prescott, local onde estivemos durante os primeiros dois episódios. Estes ataques, no entanto, foram mandados pela Joan, uma das líderes do grupo, nas costas dos restantes líderes, entre eles o David. O resto da história acontece em Richmond, com o povoamento a acabar ocupado por walkers no início do último episódio.

    Falemos agora das decisões neste jogo, mais especificamente de três situações em particular. A primeira acontece perto do fim do segundo episódio, onde o Conrad, uma personagem introduzida em Prescott, nos faz um ultimato, apontando uma arma à cabeça do Gabe para convencer o Javi que têm de entregar a Clementine como moeda de troca com "A New Frontier", já que a Clem fez parte do grupo anteriormente. Esta situação é peculiar, pois a vasta maioria dos jogadores escolhe matar o Conrad aqui e, a jogar pela primeira vez, quase todos vão tomar essa posição, pois está a ameaçar a Clementine, mas se escolhermos não o matar, ele pode sobreviver a toda a história. Sim, parece mentira mas não é, esta personagem muito secundária pode mesmo chegar ao fim da história segundo as decisões do jogador. É verdade que daqui para a frente a sua relevância é vastamente diminuída, mas não deixa de ser um feito inédito nesta série de jogos. Eu escolho sempre não o matar, até porque nada negativo acontece à Clementine caso decidamos não o matar. É uma rara situação em que podemos ter o bolo, e comê-lo também.

    A segunda situação decorre no final do quarto episódio, onde duas personagens secundárias, o Tripp e a Ava, estão em posição para serem executados. O Tripp tem uma grande ligação com o Javi, e a Ava com o David, o que leva a uma situação em que, consoante a personagem que escolhemos salvar, a Joan, que está em controlo da situação, decide matar quem não escolhemos. Esta escolha teria muito mais peso se não fosse pelo facto da personagem que sobrevive a esta situação acabar por morrer, sem falha, no próximo episódio, literalmente na mesma sequência em que a outra também morre se sobreviver. É um pouco parvo, e a maneira como estas duas personagens morrem nesta situação é, no mínimo, ridícula.

    A terceira situação é, digamos, frustrante. No último episódio deparamo-nos com o seguinte dilema: após uma discussão com o David, este vai-se embora com o Gabe, que escolhe ir com ele. Restam três personagens, Javi, Kate e Clementine. A Kate vai sempre ajudar Richmond, ao tentar fechar uma entrada por onde os walkers estão a entrar. O jogador tem a opção de ajudar a Kate ou ir atrás do Gabe. Aqui surge o problema, a Kate morre ou desaparece caso escolhamos ir atrás do Gabe. Na direção oposta, se formos com a Kate, o David morre sempre, com o Gabe a poder ou não sobreviver, tudo dependente de uma personagem nas duas possibilidades, a Clementine. Ela é a chave nesta situação. E este é o grande problema. Jogando o jogo pela primeira vez, não fazemos ideia de que decisões influenciam a Clementine nesta decisão, pois são as nossas decisões ao longo do jogo que determinam o que acontece aqui, pois existem duas opções, ou melhor, existem mais, mas o desfecho vai sempre dar a estas duas opções: ela vai atrás do jogador ou faz o inverso. Se for atrás do jogador, a personagem que escolhemos seguir sobrevive e a outra, ou outras, morrem. Se fizer o inverso, a Kate desaparece ou o David morre e o Gabe sobrevive.

    A Clementine é a chave nesta situação, mas a justificação para ela ir atrás do jogador ou fazer o inverso é algo confusa. As únicas decisões que importam para esta situação estão presentes nos flashbacks, com as decisões que tomamos enquanto Clementine. Decisões que em nada alteram o futuro da personagem, pois ela acaba sempre por ir parar aos mesmos sítios. Eu já defendi o modelo de escolhas e jogabilidade nestes jogos, onde não é o desfecho que importa mas sim a viagem, mas aqui tenho de me opor a isso e criticar. Compreendo dentro do mundo do jogo, faz sentido que as decisões da própria personagem, mesmo que não alterem o futuro, alteram a forma como os eventos acontecem. É como um prato de comida, que é sempre o mesmo, mas o tempero é diferente. Mas enquanto mecânica de jogo, considero isto frustrante, pois podemos acabar com um desfecho não pretendido só porque nos esquecemos de tomar uma decisão que parece pouco importante logo no primeiro ou segundo episódio. 

    No fundo, é só parvo e sem grande lógica isto acontecer assim, pois numa situação destas faria muito mais sentido dar a decisão direta ao jogador, em vez dessa decisão ser retirada do jogador através de decisões tomadas anteriormente e que, sem saber, influenciam diretamente o desfecho da história. É verdade que dá um maior peso às decisões tomadas ao longo do jogo, mas quando esse impacto influência o destino de múltiplas personagens e o próprio jogador não tem conhecimento de quais foram as decisões que impactaram a situação, é apenas confuso e frustrante. Além de que se quisermos alterar quais as personagens que queremos salvar, temos de voltar vários episódio atrás, além de termos desperdiçado horas para ver personagens com as quais nos importamos a morrerem mesmo no fim.

    Falta-me também criticar as cenas de ação neste jogo. Em jogos anteriores, antes do Michonne, as cenas de ação era onde encontrávamos algo para quebrar a monotonia, mas a partir do jogo anterior e neste, essas cenas passaram a ser apenas clicar em botões, quando antes envolviam por vezes apontar e depois clicar. Enfim, não gosto do modelo presente neste jogo. Tal como não gosto do design de personagens de fundo, designs limitados e repetidos inúmeras vezes quer em pessoas, quer em walkers. Acontecia noutros jogos, mas neste abusaram muito. Usar o modelo do pai da personagem principal várias vezes em várias personagens e mudar-lhe só a roupa dá uma sensação de trabalho exaustivo e uso de atalhos para poupar tempo e dinheiro.

    A temporada acaba com a Clementine a ir-se embora de Richmond, despedindo-se do Javi e outro ou outros membros vivos da família, à procura do AJ. Sim, o bebé da segunda temporada ainda está vivo, tendo sido retirado da Clementine por motivos tão parvos que nem tentam explicar que doença a criança tinha, só que estava doente, ia morrer, e não havia nada a fazer. A Clementine deu-lhe uma vacina e foi expulsa do grupo por isso. Obviamente não morreu, pois não dava jeito aos escritores matá-lo, e precisavam de alguma coisa para manter a Clem na história. Novamente, enfiaram-se num buraco por vontade própria e ficaram encurralados pelas próprias decisões criativas. Este é um daqueles jogos em que quanto mais se pensa na narrativa, pior é. Este não é um mau jogo, mas é uma má sequela, como já tinha dito antes. Se tivessem feito este jogo como uma temporada intermédia em vez de sequela direta, acho que a recepção teria sido bem melhor. Seguimos em frente, para falar da última temporada.


The Walking Dead: The Final Season

    Voltamos finalmente a um bom jogo, excelente jogo até. The Final Season é o jogo com melhor gameplay da Telltale, ou melhor, o único, já que neste jogo temos sequências de ação em que nos podemos mover livremente enquanto lutamos contra walkers, além de existirem diferentes métodos para os matar, que envolvem um leve nível de estratégia em certas situações. A história é também espetacular, com a Clementine e o AJ juntos de novo, alguns anos depois da temporada transata. A maioria da temporada passa-se num internato, onde estão vários jovens a rondar a idade da Clementine.

    A relação entre a Clem e o AJ é uma réplica da relação dela com o Lee, sendo agora ela a cuidadora e não a cuidada. Algumas das personagens notáveis nesta temporada são os possíveis interesses amorosos da nossa protagonista, o Louis e a Violet, mas as restantes personagens na escola têm também as suas próprias personalidades, umas mais que outras. O Marlon é o líder deste grupo, e o primeiro antagonista da temporada, sendo morto no fim do primeiro episódio após matar outra personagem, a Brody.

    É no segundo episódio que conhecemos o verdadeiro antagonista do jogo, ou melhor, reencontramos. A Lilly, que fez parte do grupo inicial no primeiro jogo, está a "recrutar" pessoas para lutar uma guerra no qual o seu grupo está inserido, tendo levado duas raparigas, irmãs gémeas, da escola no ano anterior. O Marlon matou a Brody quando esta dava a informação à Clementine, com o mesmo a tentar culpar a morte na Clem, no final do primeiro episódio. Quando ele se rendeu e baixou a sua arma, arma que era do AJ, o jovem pegou na arma e matou-o. A Clem e o AJ são expulsos da escola no segundo episódio, deparam-se quase imediatamente com a Lilly, trocam algumas palavras, e acabam salvos devido à Violet e ao Louis terem voltado atrás para verificar o que se passava. Acabam todos por fugir, com o AJ a ficar ferido. James, uma nova personagem, surge e salva-os.

        O James fazia parte dos Whisperers, um grupo de sobreviventes que se disfarça com pele de walkers e andam no meio deles, guiando-os para onde querem, e foi assim que salvou os nossos protagonistas. Daqui para a frente a Clem e o AJ voltam para a escola, ajudam-nos a defenderem-se, sendo eventualmente atacados, com várias personagens a acabarem raptadas, entre elas, o Louis ou a Violet, consoante aquele que escolhemos salvar no fim do segundo episódio. O terceiro episódio consiste em criar um plano para resgatar os capturados e em executá-lo no fim do episódio, com uma grande decisão no fim. A decisão é matar a Lilly ou poupá-la. O início do quarto e último episódio muda com a decisão que foi tomada no fim do terceiro. Se a escolhemos matar, o AJ, que tem a arma na mão, mata-a e dispara inúmeras vezes sobre o seu corpo após o fazer, uma situação que o James odeia profundamente. Se escolhemos poupá-la, ela mata o James. Prefiro que ele me odeie e continue vivo, em vez de estar morto e eu cheio de arrependimento.

    O início do último episódio vê todos os jovens capturados a regressarem em segurança, juntamente com os seus salvadores, com a excepção da Clementine, o AJ e o Tenn, outro jovem mais novo que a Clem mas mais velho que o AJ. Durante o episódio anterior descobrimos que uma das irmãs ainda está viva, a Minnie, enquanto que a outra morreu, tendo sido a própria Minnie a fazê-lo, tendo sido ordenada a tal. No início deste episódio vemos que a Minnie é mordida várias vezes mas ainda está viva, e à procura do seu irmão, o Tenn. Entretanto, os três juntam-se ao James e acabam numa gruta, ao fugirem de walkers, na conclusão do resgate que os viu a atrair uma horda de walkers, com a ajuda do James, e com a explosão do barco onde ocorreu a operação.

    Na gruta, o James tenta levar o AJ consigo à força, algo que não funciona já que ele luta de volta, além de entrar numa luta de palavras e física com a Clementine. No episódio anterior ele pediu à Clem para que não deixasse o AJ tornar-se num assassino, algo que o jogador pode, ou não, prometer. Independentemente da resposta, este conflito acontece na mesma. O final desta discussão, para mim, termina com o James a perceber que não pode forçar os seus princípios em outros e a ficar para trás para que os três possam escapar. Além disto, existe aqui uma decisão muito importante que tem um impacto direto, poucos minutos depois desta sequência. A decisão baseia-se em confiar, ou não, no AJ, verbalizando este sinal de confiança. Vou falar mais sobre isto quando a situação surgir.

    Quando saem da gruta, a personagem que foi salva no final do segundo episódio junta-se ao grupo, o Louis ou a Violet. Após uma conversa entre todos, enquanto voltam para casa, encontram uma ponte que está partida, mas que é possível saltar de um lado ao outro, mas quando chegam à beira, são interceptados pela Minnie, que dispara sobre eles. O seu objetivo? Matar a Clementine, a qual culpa por toda a situação, e o seu irmão Tenn, para que morram juntos. A Clem acaba a lutar com ela, com a Minnie a acertar com um machado na perna da Clem, mas esta leva a melhor e consegue pará-la. O AJ está já do outro lado, a Clem salta para o outro lado também, mas o Tenn quer ir para junto da irmã, que está ainda viva, com o Louis ou Violet a parar o jovem rapaz. Aqui vem a importância de confiar, ou não, no AJ. Se lhe dermos a confiança, ele vai disparar sobre o Tenn, o que permite à outra personagem saltar e sobreviver, se não se confiar nele, ele não vai fazer nada a o Louis ou Violet acabam mortos, com o Tenn a sobreviver.

    Por norma, eu escolho confiar no AJ, com a Violet a sobreviver e o Tenn a morrer. Após isto, a Violet acaba separada dos dois e a Clem acaba mordida enquanto ascende pelas pedras. Os dois acabam por ir parar ao estábulo onde o James guardava vários walkers, aqueles que foram utilizados para atacar o barco no episódio anterior. Aqui tomamos controlo do AJ, já que a Clem já não se consegue mexer mais, enquanto paramos os walkers de lá entrarem, numa cena incrivelmente intensa. No final, tal como no primeiro jogo, temos de fazer uma escolha enquanto o protetor que foi mordido. Tal como no primeiro jogo pedi à Clementine que disparasse, neste jogo pedi o mesmo ao AJ.

    Ainda bem que ele não o faz, corta a perna à Clementine, onde foi mordida, e carrega-a num carrinho de mão de volta para a escola, por uma horda de walkers que rodeiam o estábulo. Vou admitir, esta parte é muito difícil de acreditar, quase impossível mesmo, mas quando falamos da Clementine e de um potencial final feliz, estou disposto a acreditar em tudo, pois se existe uma personagem que merece, é ela. Neste pequeno final de jogo, controlamos sempre o AJ, controlando a forma como ele responde e reage, como fizemos com a Clem antes, como que a passar o testemunho. A última imagem que vemos é o chapéu da Clem, em cima de uma cómoda. Imagem poderosa.

    Este jogo é muito bom, não fica longe da qualidade da história do primeiro, e em termos de jogabilidade, dá 10-0 a todos os jogos que saíram antes. Ao contrário dos outros jogos, onde o mix de áudio é, por vezes, uma confusão, com bugs visuais e outros problemas, posso dizer que não experienciei nada disso nas várias vezes que o joguei. É uma pena o estúdio ter fechado a meio de lançar a temporada, pois se tivessem conseguido resistir mais uns meses, quem sabe se não teriam sobrevivido e completado o próximo jogo em que estavam a trabalhar, o The Wolf Among Us 2, um jogo que a nova Telltale, cinco anos depois, ainda não lançou. Nunca saberemos, o que sabemos é que este foi o último jogo que lançaram, e foi um dos melhores. Parecia que tinham finalmente decifrado o código e criado um bom balanço de jogo, mas assim é a vida.

    Importante mencionar que foi a Skybound Entertainment que lançou o resto da temporada, com um pequeno grupo de trabalhadores da Telltale. Este empresa é de Robert Kirkman, o criador de The Walking Dead, tendo estado sempre em colaboração com a Telltale Games nos jogos.


    Falando agora de modo geral sobre todos estes jogos, a melhor história continua a ser a da primeira temporada, com a melhor jogabilidade a ser a da última. Todos os jogos antes do último baseavam-se em "puzzles", se é que lhes podemos chamar isso, onde tudo o que havia para fazer, além das cenas de diálogo e decisões, era vasculhar as áreas de exploração até encontrar o item necessário. E ao longo dos jogos, isto foi desaparecendo e ficando mais básico, por isso a última temporada foi a lufada de ar fresco necessária para dar vida a este tipo de jogos. Foi pena ter surgido tarde demais para salvar o estúdio.

    Já escrevi bastante, mais do que em qualquer outro post, por isso vou ficar por aqui. Tentei descrever todos os jogos de forma diferente, e não quis falar de cada um separadamente, pois sinto que iria acabar por me repetir várias vezes, algo que sinto já ter feito aqui, mas pronto. O primeiro jogo é um clássico, logo recomendo que seja experienciado de alguma maneira, quer seja ver no YouTube ou jogar pessoalmente. O segundo descrevi mais a história mas também recomendo que se jogue. O Michonne não recomendo nem ver nem jogar. O terceiro é ok, acho que vale a pena ver ou jogar, mas se não o fizerem, não perdem muito. O quarto jogo recomendo bastante, é um jogo incrível e o próximo passo neste tipo de jogos. Pronto, agora acabei.


The Walking Dead: Season One - 10⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐

The Walking Dead: Season Two - 8⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐

The Walking Dead: Michonne - 5⭐⭐⭐⭐⭐

The Walking Dead: A New Frontier - 6⭐⭐⭐⭐⭐⭐

The Walking Dead: The Final Season - 9⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Grande Prémio da Hungria 2025

Ciclo

Grande Prémio do Azerbaijão 2025