Wicked


     Incrível musical que temos neste final de ano de 2024. Arrisco-me a dizer que foi um dos melhores filmes que saiu neste ano, em geral . Entra no meu top três de filmes que vi no cinema durante 2024, isso posso já avançar. Wicked, o filme, é a adaptação de um musical da Broadway que estreou em 2003, que por sua vez é uma adaptação do livro de 1995, chamado Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, que por sua vez é uma reimaginação da história do livro The Wonderful Wizard of Oz, livro de 1900, que levou à produção do filme The Wizard of Oz, de 1939. Espero que tenha ficado clara a origem deste filme.

    Visualmente estimulante e colorido, este filme capta a atenção do público desde o primeiro segundo. Um mundo rico em cores, detalhado e cheio de vida na sua paleta. O guarda-roupa das personagens pode ser descrito da mesma maneira, com cada local diferente a mostrar a sua personalidade não só em cores gerais no fundo da cena, como também na roupa das personagens.

    As coreografias são incríveis e complexas, com cada pessoa no ecrã a ter uma missão específica e única em cada momento musical. E as músicas... as músicas são maravilhosas, com cada uma a ser melhor que a outra. Para mim, existem talvez quatro que se destacam acima do resto. A música de abertura, com o povo a celebrar a morte da Bruxa do Oeste, com o nome de No One Mourns the Wicked. O solo da Elphaba após a sua primeira conversa com a Madame Morrible, The Wizard and I. O grande espetáculo coreográfico que foi a música do Fiyero, Dancing Through Life. Por fim, e esta era a mais óbvia para quem percebe alguma coisa disto, a música final do filme, Defying Gravity, com um grande dueto entre a Elphaba e a Galinda. Aliás, Glinda. 

    A história é, como já mencionei antes, uma reimaginação da história de O Feiticeiro de Oz, onde descobrimos mais sobre a Bruxa da história. No fundo, é uma biografia da mesma, que tem o nome de Elphaba. É também uma exploração do termo "maldade", o que torna uma pessoa boa ou má, onde está, de facto, a origem desta ideia. Expõe a ideia do debate de a maldade existir de forma inerente no ser humano, uma espécie de defeito genético, ou a sua fermentação consoante o ambiente experienciado à sua volta. Estou a apresentar a história do filme como algo complexo e profundo. Se pensarem sobre o filme após o verem, acredito que me irão dar razão, ainda que não o vejam como algo tão complexo, o que é justo.

    Wicked torna uma história mágica para crianças, num filme com "camadas" e para uma audiência mais velha, ou madura. Uma versão não é melhor que a outra, são apenas diferentes na sua execução e mensagem. Só porque algo é diferente, não quer dizer que seja mau. Esta frase é relevante para este exemplo, e é também uma das mensagens deste mesmo filme. "Matar dois coelhos de uma só cajadada". Excelente expressão idiomática portuguesa, sempre pertinente.

    Na origem desta personagem, descobrimos que a sua mãe traiu o seu "pai" com outro homem, com o pai a nunca ter qualquer ideia de que tal se sucedeu. Com a experiência de ter uma filha de cor verde, entre outras qualidades, como a propensão para magia, forçou a sua mulher a tomar uma medicação específica quando esta ficou grávida por uma segunda vez. Esta medicação acabou for levar a um parto prematuro e à morte da mãe de Elphaba, além de condenar a sua irmã, Nessarose, a uma cadeira de rodas. O pai culpou tudo isto em Elphaba, uma cruz que teve de carregar durante a sua vida.

    O início do filme é exatamente após o final da história de O Feitiçeiro de Oz, com as personagens principais dessa história a seguirem todas juntas na estrada de tijolo amarelo. Grande música do Elton John, já agora. Vemos a celebração de toda a gente, cantando de alegria a primeira música que eu mencionei nos meus destaques. Glinda junta-se a estas celebrações, cantando também, mas com um ar de quem não está propriamente radiante com a notícia da morte da Bruxa. Quando estava prestes a ir-se embora, é confrontada por alguém na multidão, que lhe pergunta se tinha sido amiga da Bruxa, algo que ela confirma, para choque de todos. Daqui, ela começa a contar a história, servindo como uma espécie de narradora para a história do filme.

    Vemos desenrolar, entre Elphaba e Galinda, uma relação de rivais para amigas ao longo da narrativa, enquanto frequentam a universidade de Shiz. A Elphaba nem era suposto estar em Shiz, estava lá para deixar a irmã. Mas, após ter demonstrado de forma não propositada, a sua potência mágica, a diretora Madame Morrible, ficou impressionada e fê-la lá ficar, dividindo o quarto com a Galinda.

    Outras personagens relevantes na história são a irmã de Elphaba, Nessarose, um professor que é um bode, que se chama Dr. Dillamond, Boq, um estudante que vai ter bastante importância na história que ainda ficou por contar, e Fiyero, um príncipe que também tem ainda muita importância no futuro. Digo isto pois este filme vai ter uma sequela, sendo este filme a primeira de duas partes, com o próximo filme a sair, em princípio, no próximo ano. Para quem não conhece a história não vou aprofundar mais, pois acredito que vai ser mais interessante esperar pela segunda parte para ver o desfecho das várias personagens.

    Uma das cenas mais impactantes do filme foi, para mim, a cena da festa, onde a Elphaba começa a dançar sozinha. É uma cena incrivelmente poderosa, e vou dar o contexto para a minha perspectiva. Antes da festa, a Galinda tinha convencido o Boq a convidar a Nessarose para a festa, algo que deixa a Elphaba, numa primeira instância, cética mas grata. Quando esta foi agradecer à Galinda, esta oferece-lhe um chapéu que tinha acabado de comentar com os seus amigos que considerava feio, com estes a convencerem-na que o devia oferecer à Elphaba, de forma a gozar com ela. A Elphaba ficou ainda mais grata, tendo mesmo ido falar com a Madame Morrible para a convencer a tomar a Galinda como protegida dela, o mesmo que fez com a Elphaba, ameaçando sair da universidade se isto não acontecesse.

    A Madame Morrible foi de propósito a esta festa para formalizar o pedido, admitindo à Galinda que não o queria fazer e só o está a fazer pois a Elphaba ameaçou abandonar a universidade. A Galinda finalmente percebe o quão horrível foi, e tem sido até aqui na história, para a Elphaba. Quando esta chega à festa, todos começam a murmurar entre si acerca da sua aparência, mais especificamente, o que traz vestido, o chapéu. Quando chega ao meio da sala, percebe o motivo pelo qual a Galinda lhe ofereceu o tal chapéu. Já agora, este é o chapéu clássico de bruxa, preto e pontiagudo. Dito isto, ela começa a dançar, e é uma dança estranha, não vou mentir.

    Percebe-se que este é um ponto de rotura para ela, que está habituada a ser excluída e rejeitada por todos, mas este é um novo ponto baixo. A dança é como um grito de liberdade e de revolta, ao mesmo um último pedido de ajuda, uma extensão de braço. A Galinda, sentindo-se envergonhada pelas suas ações, finalmente vê para lá do exterior da Elphaba, e vislumbra o ser humano que esteve sempre à sua frente e que sempre ignorou. Os seus amigos tentaram impedi-la, mas ela juntou-se à Elphaba e começa a dançar com ela, repetindo os seus movimentos. É um momento catártico, tanto para as personagens, como para a história e para o público. É um momento bonito, muito humano e quase primal, de conexão entre duas pessoas tão diferentes. A Elphaba acaba a dança com lágrimas nos olhos, e as duas acabam a sair juntas da festa.

    Esta cena é fenomenal, sem diálogo na parte final, quando estas duas estão a dançar. A tensão é palpável. A equipa de áudio, em geral, mas nesta cena em específico, está de parabéns. As duas atrizes, Ariana Grande e, sobretudo, Cynthia Erivo, estão também de parabéns.

    O final do filme, e o grande conflito, está situado na discriminação contra os animais em Oz, com estes a serem, no fundo, afastados da sociedade, a perderem capacidades facultativas e a regredirem para um nível semelhante aos animais do nosso mundo. A Elphaba, revoltada com esta situação, e após ver o professor Dillamond, um bode, a ser levado de forma forçada para fora de Shiz, pretende reagir a esta situação. Quando esta obtém a oportunidade de conhecer o Feiticeiro de Oz, tendo tido até aqui o objetivo de alterar a cor da sua pele, um motivo de angústia e sofrimento na sua vida, acaba em vez por pedir ao Feiticeiro ajuda para os animais. Nesta sequência, onde estão presentes o Feiticeiro, a Galinda e a Madame Morrible, ela consegue fazer algo incrível, ler o Grimmerie, um livro mágico que ninguém conseguiu, até este ponto, decifrar.

    Após conjurar um feitiço, do qual ela não fazia ideia as suas repercussões, que dá asas aos vários macacos que têm como objetivo proteger o Feiticeiro, ela descobre que nem ele sabia ler o livro, o que a leva a descobrir que é ele que está por trás da conspiração contra os animais de Oz. Com este novo conhecimento, ela leva o livro e jura opor-se ao Feiticeiro, tornando-se na inimiga pública número um, graças à máquina propagandista do reino, com a maior força por trás desta a ser a Madame Morrible. É aqui que é cantada a música Defying Gravity, o momento mais aguardado do filme. Uma música genuinamente icónica e poderosa, acerca do descobrimento de identidade, rebelião, liberdade, amizade e muito mais. É brilhante e, a melhor palavra parece mesmo ser esta, PODEROSA.

    Defying Gravity é icónica ao ponto de eu não saber nada sobre a peça de teatro e conhecer a música. Muitos conhecem devido ao Glee, provavelmente foi nesta série que eu a ouvi também pela primeira vez, mas à uns anos atrás fiquei encantado com a atriz que faz a voz da Elsa nos filmes do Frozen, a Idina Menzel, e comecei a explorar mais sobre ela. Esta atriz ficou conhecida pela sua interpretação de Elphaba, no espetáculo da Broadway, Wicked. Foi assim que descobri a música, ouvindo-a no YouTube por causa dos filmes Frozen. Facto curioso, a Idina Menzel e a Kristin Chenoweth, que interpretou a Galinda, as atrizes mais icónicas da peça de teatro, tiveram um cameo neste filme como duas cantoras, quando a Elphaba e a Galinda chegam a Emerald City.

    Este filme é especial, e recomendo-o a qualquer pessoa que goste de musicais. Até mesmo a quem diga que não gosta, pode ser que se surpreenda. A segunda parte vai sair em 2025, em principio, e mal posso esperar para ver a conclusão da história. Infelizmente já apanhei alguns "spoilers", mas acho que não vão ter grande influência no quanto eu vou desfrutar da história. Dou os meus parabéns a todos os envolvidos neste projeto, pois não só superou as minhas expectativas, alguém que não sabia nada sobre a história do filme, como as superou, sabe-se lá como. Um filme com excelente realização, guião, coreografia, música, performances dos atores, e por aí em diante. Resta, agora, esperar pela conclusão da história.


Wicked - 8⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

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