Batman: Jogos da Telltale Games

Vou falar sobre os seguintes jogos (os links levam a playlists minhas no YouTube, com gameplay de todos os jogos completos, sem comentário):

- Batman: The Telltale Series (2016) + Shadows Edition (2019)

- Batman: The Enemy Within (2017-2018) + Shadows Edition (2019)


Batman: The Telltale Series

    Aprecio imenso esta adaptação do Batman, que nos dá uma versão única e fresca de um herói tão conhecido. Neste universo, os pais do Bruce Wayne, em especifico o seu pai Thomas, foi um dos maiores gangsters de Gotham, trabalhando com o Carmine Falcone, um conhecido e tradicional vilão do Batman, e também com Hamilton Hill, o Mayor da cidade. Estes três dominavam o crime, com o Thomas Wayne a ser o verdadeiro líder da operação. Um médico bilionário que abusava do seu poder para obter aquilo que queria.

    Com a quantidade de volumes da banda desenhada que existem do Batman, além de adaptações para televisão e cinema, cada vez será mais difícil criar uma história que não esteja a repetir algo já feito antes. Sendo eu alguém que nunca leu uma banda desenhada do Batman, além de ter uma experiência muito limitada com as séries de televisão, é com os filmes que tenho mais experiência. Especificamente com a trilogia do Christopher Nolan. Dito tudo isto, gostei desta abordagem relacionada com o pai do Bruce, já que nunca tinha visto uma história semelhante do Batman.

    Tendo em conta a fórmula Telltale, as personagens podem parecer diferentes consoante as decisões do jogador, com o Bruce Wayne e Batman a estarem, naturalmente, em destaque neste aspeto. O Bruce pode parecer o típico galã filantropo ou um bilionário reservado e estranho em interações sociais. O Batman pode ser um pilar da justiça, ainda que opere fora dela, ou um bruto capaz de torturar e brutalizar os seus oponentes. Tanto este jogo como a sequela fazem um bom trabalho em vender ao jogador a ideia destas diferenças, com a opinião das diferentes personagens a alterar-se consoante as ações do jogador enquanto Bruce ou Batman.

    Mais do que noutros jogos, nos jogos do Batman as decisões do jogador parecem mesmo ter um maior impacto na história. Como já o disse antes, não é que altere por completo o desfecho da história, mas a maneira como se lá chega pode variar imenso nas interações com as diferentes personagens. Sobretudo no segundo jogo, mas já lá vamos.

    Vemos várias caras conhecidas, como o Alfred, Lucius Fox, James Gordon, Harvey Dent (Two Face), Oswald Cobblepot (Penguin) e a Selina Kyle (Catwoman). O Oswald Cobblepot é um amigo de infância do Bruce, o Harvey Dent é amigo do Bruce, estando a concorrer para Mayor da cidade de Gotham, contra o Hamilton Hill. O Alfred e o Lucius têm os seus papéis habituais como aliados do Bruce, trabalhando os dois para ele, com o James Gordon a ser o habitual contacto dentro da polícia. A Selina é o interesse amoroso da temporada, acabando por trabalhar várias vezes com o Batman como Catwoman. Existe ainda a Vicki Vale, repórter que parece estar em todos os locais importantes nos momentos certos.

    Os vilões da história são Children of Arkham, liderados por Lady Arkham, com o Penguin a estar envolvido no projeto. A Catwoman também trabalha para eles, mas apenas numa espécie de freelance, sem ter qualquer ideia do plano deste grupo para Gotham. Mais tarde na temporada, o Harvey Dent torna-se no Two Face e passa a ser mais um vilão contra o Bruce e o Batman.

    A identidade da Lady Arkham é descoberta mais tarde na temporada, com a Vicki Vale a ser a sua verdadeira identidade, ou melhor, Victoria Arkham, já que o primeiro nome deve-se a esta ter sido adotada em criança. Esta perdeu os seus pais biológicos devido a Thomas Wayne, que ordenou a morte dos dois. Cometeu crimes semelhantes contra os Cobblepot, tendo colocado a mãe do Oswald em Arkham, onde lhe destruiu a mente, algo que levou o seu pai ao suicídio. Por estes motivos, a história deste jogo é bastante pessoal para os vilões e para o Bruce Wayne.

    Diria que durante a larga maioria do jogo, esta história consegue, por vezes, ser superior à sequela. Os meus problemas estão relacionados com problemas técnicos e, sobretudo, com o confronto final do jogo. Relativamente aos problemas técnicos, este jogo tem vários problemas com o áudio, com várias sequências ao longo da temporada a não terem alguns dos sons que deveriam estar presentes, sobretudo em cenas de combate. Por vezes faltam mesmo linhas de diálogo, fácil de detectar devido ao contexto da cena e devido às legendas aparecerem no momento em que essas linhas deviam ser ouvidas.

    O confronto final é, ainda assim, o ponto mais fulcral da minha crítica. A Lady Arkham mostrou ser, ao longo de todo o jogo, uma personagem maquiavélica e sem escrúpulos. Criou todo um plano para entregar Gotham ao caos e punir aqueles que eram corruptos aos seus olhos. No confronto final com o Batman, parece ter perdido toda a personalidade e inteligência que demonstrou ao longo da história. Prolifera várias frases clichés sem qualquer dimensionalidade e perde aquele elemento misterioso que criou até aquele ponto. O elemento misterioso é compreensível, já que por aquela altura temos bastante contexto sobre a sua vida, derivado dos eventos dos últimos episódios, mas a perda de dimensionalidade é imperdoável.


Batman: The Enemy Within

    Joker, este jogo tem o Joker. Não o mencionei quando falei do primeiro jogo, mas ele também aparece nesse, quando o Bruce acaba em Arkham no início do quarto episódio. Não o incluí na lista de vilões pois ele não é um vilão no primeiro jogo, mas apenas um paciente psicótico de Arkham, como tantos outros. Na realidade, este até acaba por ajudar o Bruce, com essa ajuda a ser aproveitada, ou não, consoante as escolhas feitas pelo jogador.

    Durante o jogo, acabamos por passar bem mais tempo como Bruce Wayne do que Batman, uma escolha arrojada mas que é recompensada no episódio final, já que este último episódio pode ser bem diferente dependendo das escolhas feitas ao longo do jogo. Mais especificamente no quarto episódio. Mas já lá vamos, porque primeiro tenho de dar mais contexto.

    A história deste jogo começa à volta de um ano depois da Lady Arkham ter sido derrotada. Um novo grupo de vilões aparece, com o primeiro deles a ser o Riddler. Este morre no fim do primeiro episódio, após ser derrotado pelo Batman, de uma forma misteriosa. O restante grupo, chamado de "The Pact", é composto por Bane, Mr. Freeze, Harley Quinn e John Doe ou Joker. The Agency, uma agência misteriosa liderada por Amanda Waller, está a tentar parar este grupo, sendo que no processo descobrem a identidade do Batman, algo que é revelado no fim do primeiro episódio. Após esta revelação, a maioria da história segue o Bruce a infiltrar-se no grupo, com o apoio da agência e com a amizade do Joker, que é a sua ficha para entrar no grupo.

    O objetivo do Pacto é obter um item secreto capaz de resolver os diversos problemas de cada um dos membros, chamado de "Project LOTUS". O Riddler está no centro do dilema, com este a juntar o grupo através da propagação da existência de que tal coisa existe. Descobrimos as diferentes peças do puzzle ao longo do jogo, mas a parte fundamental é que este Project LOTUS foi criado pela SANCTUS, departamento científico da Agência, com o objetivo de regenerar feridas a soldados. Todas as pessoas que foram expostas a isto morreram, menos o Riddler, que trabalhava lá e foi injetado. Ele acreditava que era possível utilizar o LOTUS, algo que o Batman acaba por descobrir que não é, encontrando vários erros nos cálculos do Riddler. Este começou a deteriorar psicologicamente devido à injeção, tendo mudado radicalmente a sua personalidade, algo que descobrimos numa conversa com uma personagem que vou falar em breve..

    Um ponto relevante na história deste jogo é a morte do Lucius Fox, devido a uma armadilha do Riddler que tinha sido dada ao Batman pelo mesmo. Este dispositivo era um emissor de frequências que servia como localizador para um míssil, que tinha como objetivo matar o Batman. Esta morte tem um grande impacto na história, com a filha do Lucius, a Tiffany, a assumir um papel relevante na história. Ela acaba por assumir o papel do seu pai e juntar-se ao Batman, com um papel talvez ainda mais importante, já que tem uma abordagem ainda mais direta na sua parceria com o justiceiro.

    Durante a história vemos o regresso da Catwoman, com esta a trabalhar com o Pacto e, em específico, com o Riddler, alguém que ela considerava como amigo. É a continuação da relação com a personagem, que no meu caso costuma ser a continuação do romance entre os dois. Podem mesmo acabar por ter um relacionamento e parceria, mas é de curta duração devido aos acontecimentos do jogo, que encurtam uma das melhores dinâmicas destes jogos. A Catwoman é facilmente a minha personagem favorita desta saga, com a performance da Laura Bailey a ser incrível.

    O Alfred e o Jim Gordon continuam a ser grandes aliados do Batman, mas a relação com estas duas personagens é posta ao limite, com o caso do Jim a estar relacionado com a Agência e a Amanda Waller. O Jim não gosta nem da Waller, nem da agência, já que estes trabalham sem qualquer supervisão e imunidade total. Quanto mais o jogador alinhar com a Agência, pior será a relação com o comissário. Acaba mesmo por tentar prender o Bruce, mas sem sucesso. Eu gosto sempre de trabalhar com o Jim, por isso sou algo suspeito nesta discussão. Relativamente ao Alfred, vou falar mais à frente, pois é com ele que temos a última decisão do jogo, e é gigante.

    Voltando ao Joker, no quarto episódio existem uma série de decisões que podem levar a um último episódio com duas linhas bem distintas. Uma linha é o Joker tornar-se num vilão, com a Harley Quinn ao seu lado, isto caso o jogador não confie nele. Caso o jogador aposte a 100% no John e acredite em tudo o que ele diz, mesmo que de uma forma algo cética, o Joker torna-se num vigilante tal como o Batman, mas obviamente com menos apreço por vidas humanas. Acredito que é nesta dinâmica do último episódio ser, essencialmente, dois episódios completamente diferentes, que eleva este jogo acima do seu antecessor.

    No final com o Joker vilão, o episódio é, mais uma vez, maioritariamente jogado como Bruce Wayne, com várias das pessoas mais próximas do Bruce a serem raptadas e confrontadas com erros anteriores. No final com o Joker vigilante, tanto o Joker como o Batman estão a ser perseguidos pela Agência, com os dois a juntarem-se no início do quinto, e último, episódio. Em ambos os episódios, existe um confronto final entre os dois, mas a divergência entre o Joker e o Batman no final vigilante deve-se a diferentes opiniões em como combater a injustiça, com o Joker frustrado com a posição do Batman relativamente a como lidar com a Waller e a Agência.

    Acaba por ser revelado, de uma maneira ou de outra, que a Tiffany foi quem matou o Riddler, vingança relativa à morte do seu pai. Existe uma decisão acerca desta personagem, que se baseia entre entregá-la às autoridades pelo seu crime ou "forçá-la" a compensar o seu crime ao trabalhar para o Batman. Outra decisão importante está relacionada com o Joker, sendo que após ser derrotado, este pergunta se a amizade entre ele e o Bruce foi verdadeiramente reciprocada ou não, algo que pode, ou não, oferecer uma segunda linha de redenção a esta personagem no seu futuro, dependente da resposta dada.

    A derradeira decisão do jogo está presente na última conversa do jogo, entre o Bruce e o Alfred. O Alfred mostrou, ao longo do jogo, estar algo traumatizado com a situação da Lady Arkham, além da morte do Lucius no início deste jogo. A sua saúde física e psicológica parece deteriorar um pouco ao longo da narrativa, mas o confronto final é, no fundo, uma maneira do jogo confrontar as decisões do Bruce e, por sua vez, do jogador, ao longo dos dois últimos jogos. O Alfred diz que se vai embora e que, desde que tomou esta decisão, deixou de estar nervoso. Acusa o Bruce de usar o John para entrar no Pacto, entre várias outras ações e decisões, dando também a indicação que se sente culpado por tudo o que o acusa, criando um paralelo entre o Bruce e o seu pai. Não que estes sejam iguais, pois lutaram por coisas bem diferentes, mas que o Bruce estava a caminhar para o mesmo local onde se encontra o seu pai, o caixão, e este recusa-se a compactuar novamente para a autodestruição de outra pessoa importante para si.

    A decisão é simples mas complexa, ir embora com o Alfred e desistir do Batman, já que este faz uma última tentativa de impedir aquilo que não conseguiu antes com o pai do Bruce, ou deixar o Alfred ir embora e continuar a ser o Batman. Uma decisão monumental na conclusão da narrativa, que até hoje não tem sequela e que, por enquanto, não parece que vá acontecer. Por não haver sequela é que esta decisão acaba por ter um grande peso, pois neste universo, até ao momento atual, se o jogador escolher juntar-se ao Alfred, o Batman retira-se permanentemente, algo que implica grandes consequências para Gotham.


Batman: Shadows Edition

    Esta foi uma edição dos dois jogos, lançada pela "nova" Telltale em 2019. É um filtro preto e branco dos jogos. Penso que poderão ter resolvido alguns bugs pelo meio, mas muitos continuaram existentes, sobretudo no primeiro jogo. É verdade que dá um certo estilo aos jogos, funciona bem com o tipo de histórias que estão a ser contadas, mas é mesmo só um filtro estilo film noir.


    Estes jogos têm imensa qualidade, quer na escrita, que 95% do tempo é excelente, quer na performance dos atores, com a Laura Bailey, que já mencionei antes, o Troy Baker, que faz a voz do Bruce e Batman, ator mais conhecido por interpretar o Joel, no The Last Of Us. Anthony Ingruber, que faz a voz do Joker, é também excepcional neste papel. Em geral, as performances são excelentes, é um daqueles pontos em que, por norma, a Telltale não falhava.

    O primeiro jogo é muito bom mas, como já disse, o confronto final, e em específico a vilã, falham de forma incrível na meta. É um jogo que podia muito bem ter uma pontuação igual à sua sequela mas falha no momento fulcral e, por isso, considero-o inferior ao segundo jogo, que fez o inverso com o seu vilão no fim da história.

    O segundo jogo tem um grande elenco de personagens e de vilões, mas talvez peque demasiado devido à sua pouca utilização do Batman, mas recupera e ultrapassa o primeiro jogo devido à qualidade dos seus vilões e, em específico, o grande vilão no fim da história. A Telltale merece todos os elogios pela decisão de criar, essencialmente, dois episódios diferentes para concluir a história, é como se fosse uma temporada de seis episódios em vez de cinco. O Joker é uma personagem fenomenal na mitologia do Batman e, neste jogo, carrega esse legado e cria o seu próprio espaço dentro da mitologia. E penso que esta frase se pode aplicar a estes jogos em geral, com todas as personagens presentes a mostrarem facetas cativantes e diferentes do habitual, pelo menos para um fã casual.

    Considero o segundo jogo melhor do que o primeiro, muito devido à diferença de conclusão entre as histórias, mas também a nível técnico, a ter menos bugs e erros do que o primeiro. Também os tem, mas são menos e isso melhora o tempo passado com o jogo. Aproveito também para elogiar a música nestes jogos, que têm temas bastante memoráveis.

    Após ter jogado recentemente aos dois jogos, decidi primeiramente subir a pontuação dos dois em um valor, mas após algum tempo decidi voltar às pontuações originais. Considero que as pontuações originais são as mais corretas e equilibradas. São muito bons jogos e gostava de, um dia, poder jogar a uma nova sequela neste universo, mas penso que vai depender do sucesso da atual Telltale que, para já, ainda só lançou um jogo, e foi um jogo um pouco desapontante e abaixo do esperado. Há que ter em conta que nem era esperado muito, o que acaba por ser ainda mais preocupante, mas só o tempo dirá se a Telltale vai voltar ao topo. Juntamente com esse topo estará, sem dúvida, o terceiro jogo do Batman.


Batman: The Telltale Series - 7⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐

Batman: The Enemy Within - 8⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

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