A Complete Unknown
A Complete Unknown, ou Um Completo Desconhecido na língua de Camões, é uma biografia sobre a vida de Bob Dylan, focando-se em específico no início da sua carreira, quando se mudou para Nova Iorque com 19 anos de idade, até ao início do estrelato e a controvérsia com a introdução de instrumentos electrónicos na sua música, algo radical na altura já que este tipo de instrumentos estavam na sua infância e a sua apreciação não era ainda geral, muito menos dentro da música folk.
Não vou meter isto por meios termos, este filme é absolutamente fantástico. Não posso dizer que era um enorme fã do Bob Dylan antes de ver o filme, mas todas as músicas que tinha ouvido dele antes tinha gostado, e posso dizer que este filme fez de mim um fã. E fiquei ainda mais fã do Timothée Chalamet, que teve uma performance digna de um Óscar, que espero que ele vença em Março de 2025 e, assim, da próxima vez que falar aqui sobre um filme dele, posso dizer que sou um visionário e um dos seus maiores fãs. O homem cantou e tocou todas as músicas no filme, tendo aprendido a tocar guitarra e a ter lições para cantar tal como o Bob Dylan. A Monica Barbaro, que interpreta Joan Baez, também aprendeu a cantar e a tocar para este filme, tendo também uma performance incrível. O Edward Norton, que interpreta Pete Seeger, também cantou e tocou as músicas, em específico o banjo, e ainda Boyd Holbrook, que interpreta Johnny Cash. Importante também lembrar que além de aprenderem verdadeiramente a cantar e a tocar, também o fizeram ao vivo, não houve playbacks, algo verdadeiramente impressionante e que destaca a música deste filme acima de tantos outros que abordam este tipo de biografias de músicos.
Separando a música e abordando a performance dramática dos atores, tenho também de tirar o meu chapéu a todos e, mais uma vez em especial, ao Timothée Chalamet. É uma daquelas interpretações que fica na memória e é a mais impressionante que vi numa biografia até agora. Definitivamente a melhor neste género de biografias de músicos, que o Bohemian Rapsody começou em 2018. Voltando a Chalamet, esta é uma daquelas performances que eu não queria parar de ver, acredito plenamente que ele é o Bob Dylan quando está no ecrã, quer numa cena dramática quer a cantar, na maneira como fala e como age. Já fui ver vídeos do Bob Dylan e parece-me que ele capturou não só os seus maneirismos como a sua vibe e energia. Cativante do início ao fim.
Ainda não falei na Elle Fanning, que interpreta a personagem Sylvie Russo, que é inspirada em Suze Rotolo, a namorada de Dylan durante esta altura da sua vida, na vida real. Conhecia o seu nome, mas nunca tinha visto nenhum trabalho seu, e posso agora dizer que fiquei fã de Fanning. Interpreta uma das poucas personagens no filme que não está relacionado ao mundo da música, mas só porque não toca nem canta, não quer dizer que não tenha tido uma excelente performance. A personagem não tem o nome original devido a um pedido de Bob Dylan, por respeito à sua antiga namorada, isto segundo a Elle Fanning numa entrevista, algo que dá um toque especial a esta história e a esta personagem.
Já tinha visto trabalhos da Monica Barbaro, nomeadamente o filme Top Gun: Maverick, mas aqui teve um papel de maior relevância, e ascendeu ao nível necessário para entregar uma excelente performance, tendo ficado também fã dela. Tal como Chalamet, ela teve de aprender a cantar e a tocar tal como Joan Baez e o resultado está à vista, com uma nomeação para o Óscar de atriz secundária.
O Edward Norton não precisa de introduções, tendo sido também brilhante como Pete Seeger, estando também nomeado para o Óscar de ator secundário. É um ator incrível e não me surpreendia se ganhasse o prémio este ano, sendo a sua terceira nomeação para este Óscar específico e a sua quarta nomeação em geral, não tendo ganho nenhum até agora, algo inacreditável. Ainda mais inacreditável é não ter sido nomeado pela sua performance no Fight Club. Aliás, esse filme teve apenas uma nomeação, para melhor banda sonora, mas esta é uma conversa para outro dia, porque é demasiado fácil tirar a credibilidade aos Óscares, mas ao mesmo tempo continuamos sempre interessados em saber o que acontece nessa cerimónia altamente defeituosa. Ok, ok, conversa para outro dia.
Quero ainda destacar Boyd Holbrook, que interpreta Johnny Cash. A caracterização é incrível, tão incrível que nem reconheci o ator até me terem dito quem era. Quer na aparência, quer na performance, está verdadeiramente incrível. Não me teria importado de o ver em mais cenas, isso é certo.
Grandes performances, isso já foi reconhecido, mas a cinematografia e realização são também de topo. James Mangold, realizador e um dos guionistas, mostra uma grande paixão pela arte de fazer filmes, algo perceptível neste filme ou em qualquer uma das entrevistas em que o ouvimos a falar sobre o seu trabalho. O outro filme que vi dele foi o Ford v Ferrari, outro excelente filme, mas também realizou o Logan e Walk the Line, outra biografia mas de Johnny Cash. Estou a notar um padrão com este seu filme mais recente. Vou definitivamente ver esta última menção.
A música neste filme é mesmo incrível, e ajuda o facto de o filme ser sobre um dos melhores letristas e músicos de sempre. Basicamente parte do filme é escrito pelo próprio Dylan através das suas músicas. Foram utilizados instrumentos contemporâneos da altura, incluindo os microfones, que ajudam na imersão da música da época, além de instrumentos originais dos próprios músicos ou réplicas exatas desses mesmos instrumentos.
Quer seja em roupa, quer nas ruas ou dentro de apartamentos ou estúdios, está tudo estudado ao detalhe. Não é uma daquelas situações onde as coisas são da época certa mas têm uma aparência pristina e perfeita, dá para ver na roupa que o Bob Dylan utiliza no início do filme, por exemplo, que é roupa usada e gasta, mostrando a atenção ao detalhe por quem trabalha atrás das câmaras. Esta paixão demonstrada pelas pessoas que trabalharam neste filme relembra-me e devolve-me a mim mesmo a paixão que tenho pelo cinema, uma arte que tem vindo a tornar-se mecanizada e previsível, mas que ainda tem pessoas que se importam com o que fazem e que querem passar essa paixão a outros. Neste aspeto, como em tantos outros, acho que este filme venceu.
Um grande filme a todos os níveis, que tomou decisões inteligentes na sua narrativa. Ao contrário de outras biografias, focaram-se num curto espaço temporal, neste caso o início de carreira de Dylan, entre 1960 e 1965, desde o momento que chegou a Nova Iorque até ao Newport Folk Festival de 1965. 140 minutos para cinco anos é razoável e alcançável. É um filme com foco e que sabe a história que quer contar desde o primeiro minuto. Isto não quer dizer que foram de facto a facto ou de evento a evento durante o filme, até porque tenho vindo a abraçar a ideia de que biografias deste género, relacionados com músicos neste caso, não precisam de acertar em cheio nas datas ou em eventos como se fossem uma lista de tarefas domésticas, mas precisam de contar uma história coesa e com uma vibe que encapsule a história da pessoa, ou pessoas, retratada, algo que parece ter sido atingido. Obviamente, o próprio Bob Dylan aprovou a história do filme e o ator que o interpretou. Isto, juntamente com o produto final que pude ver no cinema, leva-me a crer que este filme foi um sucesso. Isto sem contar com os inúmeros prémios e nomeações que já obteve desde Dezembro de 2024. Em Portugal só estreou no final do mês de Janeiro de 2025.
Acho importante manter uma mente aberta relativamente a liberdades criativas dentro de histórias baseadas em eventos reais, acho que não devemos ser extremistas e rejeitar algo só porque não é uma recriação 100% perfeita do que realmente aconteceu. Ao mesmo tempo, também não devemos aceitar uma história baseada em factos reais que desrespeita aqueles que tenta representar. Este conselho serve tanto para qualquer pessoa que leia isto, como para mim mesmo.
Para mim, o momento em que percebi que este filme ia ser especial, foi no mesmo momento que o próprio realizador o percebeu, na cena em que o Dylan conhece Woody Guthrie e Pete Seeger, em que canta a canção "Song to Woody", uma homenagem ao músico que nesta altura estava no hospital devido à doença de Huntington, que o tinha começado a debilitar por esta altura. Esta cena solidificou para mim o quão brilhante é o Timothée Chalamet, que além de encarnar Bob Dylan a pessoa, encarnou-o também como músico, ao cantar e tocar a música ao vivo, sem playback, naquela cena. Magnífico. Basicamente podia ficar a ouvir todas as músicas do filme a serem cantadas e tocadas durante horas, e nem estou a exagerar.
Há tanto mais que podia falar, mas vou cortar por aqui, porque acredito que a minha posição é já clara acerca deste filme. É um daqueles que faz uma escala de 1 a 10 parecer insignificante, porque no fundo, não existe uma melhor nota do que recomendar alguém a ver o filme, não existe maior honra que levar alguém a ver o filme em conta. Vejam o filme se não viram, se são fãs provavelmente viram, se não conhecem, ficam a conhecer e a gostar, e se não gostarem não faz mal, porque eu gosto. Até à próxima!
A Complete Unknown - 8⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐
- Miguel Caetano Caeiro

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