A situação do Franco Colapinto e Jack Doohan na Alpine é ridícula
A Alpine conseguiu construir a única situação relevante durante a época baixa de notícias relacionadas com a Fórmula 1 e, por isso, tenho de lhes agradecer. Vou falar sobre a situação do Jack Doohan na equipa francesa, mas primeiro vou dar contexto acerca deste piloto. Foi contratado em Agosto de 2024, sendo promovido dentro da equipa, já que era um dos pilotos que faziam parte da academia da Alpine desde 2021, quando esta foi estabelecida. Natural da Austrália, nascido em 2003, Doohan não venceu nenhum dos campeonatos júniores abaixo da F1, tendo ainda assim obtido um 2º lugar na F3 asiática em 2019-20, 2º lugar na F3 em 2021 e 3º lugar na F2 em 2023. É um piloto reserva da Alpine desde 2022, e estreou-se numa corrida pela Alpine em Abu Dhabi, no final da época passada, de 2024.
Um trajeto respeitável, com alguns pódios em diferentes competições. Não é tão impressionante como outros pilotos que estão na grelha, mas existe um número finito de campeonatos onde podem competir, a competição é intensa e só um piloto pode vencer cada campeonato. É um piloto que merece respeito e tempo para se adaptar a este nível.
Franco Colapinto é natural da Argentina, também nascido em 2003, e membro da academia da Williams desde 2023. Na época passada teve a oportunidade de participar em nove corridas pela Williams, após Logan Sargeant ter sido dispensado. Fez cinco pontos nessas corridas e impressionou o mundo da Fórmula 1. Antes de chegar ao pináculo do desporto motorizado, venceu a F4 espanhola em 2019 e ficou em 3º lugar por três vezes, na Formula Renault Eurocup e Toyota Racing Series em 2020, e na Asian Le Mans Series em 2021. Passou também pela F3 e F2, mas sem nenhum resultado final dentro do top três.
O que o Colapinto fez na época passada foi especial, e definitivamente justificou um lugar na F1, além de ter impressionado em vários campeonatos em anos anteriores. Contudo, acredito que esta situação também não seja excelente para ele, pois também lhe recai alguma pressão desnecessária.
A Alpine assinou com o argentino por CINCO ANOS. Um contrato de meia década após nove corridas na F1. Não estou a dizer que ele não tem talento ou que não o merece, mas acho um exagero estas medidas. Não percebi ao certo se é uma espécie de empréstimo por parte da Williams, mas ele é piloto da Alpine durante os próximos anos e a Williams tem algum tipo de vantagem em caso de uma eventual saída do argentino da Alpine. Isto é a minha interpretação e pode estar errada, mas de qualquer maneira, o Colapinto está agora na Alpine e vai lá ficar durante bastante tempo, em princípio.
A pressão colocada no Jack Doohan, ainda antes deste começar a temporada pela equipa, está a um nível altíssimo. É frustrante ver um piloto a ser colocado numa rota de falhanço ainda antes de começar. O Colapinto não foi contratado para ser reserva, ainda que seja esse o seu papel atual. É óbvio que o Briatore gosta muito do piloto argentino e o quer colocar o mais rapidamente possível como piloto titular. A grande questão que está no ar, por esta altura, é quanto tempo vai ter o jovem australiano.
Gostava de ver o Doohan a sair-se bem, só para ver que desculpa vão inventar para o tirar do carro e colocar o Colapinto. Se pareço negativo para o Colapinto, acreditem que a minha frustração não é com ele, mas sim com a equipa que o assinou. Obviamente para ele faz todo o sentido, pois está a assinar com uma equipa onde tem boas chances de eventualmente obter um lugar a titular, quem sabe se não será cedo nesta época. Além de ter um contrato longo e financeiramente aliciante. Faz todo o sentido o Colapinto assinar com a Alpine e, de certa forma, também faz sentido para a Alpine, o timing é que foi fora de tempo, e as repercussões de despedir o Doohan durante a época, pode colocar em causa o objetivo da sua própria academia.
A imagem transmitida à academia da Alpine caso dispensem o Jack Doohan antes deste ter uma oportunidade de demonstrar o seu trabalho será, certamente, negativa para quem lá está inserido e quem venha a considerar assinar com a equipa. Lá está, um jovem piloto vai sempre querer assinar por uma grande marca e obter o seu apoio, mas o talento que vão atrair pode diminuir, pois os jovens pilotos que tenham a possibilidade de assinar por outra marca, irão pensar duas vezes antes de se juntarem à Alpine. Vemos equipas como a Mercedes, que em 2025 vai ter dois pilotos da sua academia na equipa principal. A Ferrari tem atualmente um piloto da sua academia a correr pela equipa principal, e tem outro numa equipa à qual providenciam motores. A Red Bull, com a saída de Pérez, tem apenas pilotos da sua academia nas suas duas equipas. A McLaren tem um piloto da sua academia na equipa principal.
As equipas da frente têm investido nas suas academias, enquanto que a Alpine só agora é que vai promover um piloto da sua academia à equipa principal. Mesmo caso consideremos juntar a estes dados os dos tempos da Renault e Lotus, continuamos a ver um padrão nesta equipa, muito poucas promoções diretas. O Jack Doohan é apenas o terceiro piloto na história da Renault/Lotus/Alpine a ter a sua estreia pela equipa que o desenvolveu. Este programa existe desde 2002, e o Doohan é apenas o terceiro a estrear-se, com os outros dois a serem o Heikki Kovalainen e Romain Grosjean, ambos na segunda metade da década de 2000. Como já disse, existe um padrão nesta equipa, e agora que o iam quebrar, parece que vão voltar ao habitual e ir buscar outros pilotos formados noutras academias.
Dado curioso, o Tiago Monteiro, piloto português que esteve na F1 em 2005 e 2006, foi um dos primeiros pilotos a fazer parte desta academia. Entrou em 2002 mas, como é possível perceber, nunca correu pela Renault, tendo feito a sua estreia em 2005 com a Jordan, equipa histórica que viria a desaparecer no final desse mesmo ano de 2005. Tecnicamente a Jordan é, atualmente, a Aston Martin, após passar por várias identidades, com a mais longa a ser a Force Índia, durante uma década, de 2008 a 2018.
Para ser honesto, eles bem tentaram promover o Piastri em 2022, quando anunciaram que este tinha acordado assinar como piloto titular da equipa para 2023, algo que foi desmentido pelo mesmo, com a relação a acabar de uma forma dramática. Obviamente, o australiano não tinha assinado o contrato, e a equipa tentou forçá-lo a ficar, de uma forma algo, peculiar, digamos. Esta situação é apenas uma no mar de situações constrangedoras e parvas relacionadas com esta equipa, que tem a tendência em não gerir e tratar bem o seu talento, alegadamente claro. Esta é a minha opinião, como um fã do desporto há já muitos anos.
A situação de Jack Doohan é interessante por vários motivos, como já demonstrei. Caso este seja dispensado antes do fim da época, a equipa sofre o risco de, a curto prazo, obter melhores resultados, mas a longo prazo, a atração de novo talento poderá revelar-se mais difícil. É muita pressão na equipa, no Jack Doohan, e no próprio Franco Colapinto que, caso não consiga obter imediatamente bons resultados após estar atrás do volante, pode encontrar-se numa situação semelhante à do australiano. Se voltar a aparecer um piloto a meio da época, que consiga impressionar todo o paddock em meia dúzia de corridas, e a Alpine corra para o assinar, o Colapinto vai sentir na pele o que o Doohan deve estar a sentir neste momento. Improvável, sim, mas acredito que a minha mensagem foi transmitida.
Espero que o Jack Doohan tenha sucesso, e espero que o Franco Colapinto tenha sucesso. Espero também que o Pierre Gasly tenha sucesso, mas a Alpine, nem por isso. Têm revelado ser uma casa a arder em anos recentes, e não acredito que muitos fãs neutros apoiem a equipa em específico, mas sim os pilotos que lá estão, que merecem mais e melhor. Há sempre espaço para evoluir e aprender com erros passados, e espero, para bem destes pilotos, que esta equipa dê a volte e aprenda, mas algo me diz que isso, provavelmente, não vai acontecer.
- Miguel Caetano Caeiro

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