RAIVA - Teatro Pax Julia (14 de Fevereiro de 2025)


     RAIVA é uma peça de teatro que tive o prazer de ver em pleno Dia dos Namorados. A última parte não é relevante, sendo apenas um facto curioso sobre o dia, que contrasta imenso com a narrativa que temos em mão. Tal como é dito na sinopse da obra, esta é uma história focada numa relação entre uma mãe, em idade sénior, e uma filha, adulta. O mais curioso é isto ser baseado numa relação real, que foi parcialmente exposta no álbum ilustrado NÃO TE AMO MÃE, com ilustração de Cristina Viana e o texto a ser da autoria de Gisela Cañamero, com esta última a ser a arquiteta desta mesma obra de teatro, adaptando-a para esta realidade.

    Posso afirmar que o facto de ser baseado numa relação real faz completo sentido, já que é um texto rico em detalhes e, através da performance das atrizes Luzia Paramés, mãe, e Sara Castanheira, filha, se traduz num verdadeiro estudo sobre o ódio que nasce e floresce dentro de famílias. Estas duas personagens, que partilham um dos elos de ligação mais intensos que podem existir, o de mãe-filha, ou pai-filho e por aí em diante, demonstram uma das piores versões possíveis que podem existir a este nível de grau parentesco. Não é por acaso que utilizei a palavra intensidade, em vez de tantas outras que costumam ser utilizadas para descrever uma relação entre mãe e filha, para descrever a relação deste caso em particular. Não tem qualquer tipo de qualidade positiva esta relação, mas que é intensa, lá isso é.

    Várias palavras são indevidamente utilizadas e perdem, assim, o seu valor. O nome da peça é RAIVA, mas a palavra ódio seria um bom substituto, com esta obra a mostrar o verdadeiro significado desta palavra. Estas duas pessoas odeiam-se, sem qualquer espaço para dúvidas. Existe ainda o pai, mas este está sempre fora de cena, estando bastante doente e a precisar de cuidados constantes. Vivem numa situação precária em mais sentidos do que um, e qualquer tipo de redenção está fora das cartas por esta altura.

    Esta obra, que como já referi anteriormente, é baseada num caso real, pode despertar PTSD em pessoas que já passaram por situações semelhantes, não fosse a arte um método de transmitir emoções e sentimentos entre seres humanos, não é verdade? Aliás, qualquer pessoa com uma relação negativa com um dos seus pais consegue imediatamente criar um laço de empatia com a filha. Posso dizer que, de forma indireta, não tendo sido eu um dos intervenientes principais, já observei e experienciei as sequelas de uma relação desequilibrada entre uma mãe e uma filha. Nada fácil.

    Está agora na hora de elogiar a performance das duas atrizes que estiveram em palco, sendo elas a Luzia Paramés e a Sara Castanheira. São duas performances verdadeiramente incríveis, que me fazem pecar por falta de adjetivos suficientes para descrever o excelente trabalho que fizeram. Numa peça tão intensa, o comprometimento para com as suas personagens é vital para que o público se sinta investido no que está a assistir, e esta é apenas uma das várias dimensões em que a Luzia e a Sara arrasaram por completo.

    Continuando ainda no tema da performance das atrizes, tenho agora de destacar a comédia presente na peça. Na sinopse descrevia o humor como negro, e negro ele o é. Comentários mórbidos onde as personagens, em destaque a mãe, aborda temas de teor sexual a atos de violência com uma casualidade, mais uma vez, mórbida. A mãe aborda temas sensíveis e de trauma profundo para a filha com uma indiferença gritante, ou como se todas as suas ações fossem óbvias e lógicas, derivadas de uma razão empírica e universal, mas que uma pessoa equilibrada e saudável chamaria de abordagem estranha e cruel. Acreditem, a maneira como a Luzia Paramés entrega várias das suas linhas, tendo em conta tudo o que acabei de descrever, é de uma mestria de comédia, com timings e entoações perfeitas.

    A filha proporcionou vários momentos memoráveis, vários deles cómicos, mas aqueles que provavelmente vão ficar mais tempo na memória são uma dança interpretativa, onde durante largos minutos vai de um lado ao outro do palco, a preparar a casa para a visita de agentes que vêm verificar as condições presentes nesta, já que a mãe andou a gritar para tentar chamar a atenção de quem a ouvisse e conseguiu. Esta dança consistiu em arrumar a casa e prepará-la para as visitas, mas é daquelas situações em que se tem de estar presente para compreender o seu impacto. Teve ainda uma canção, em inglês, onde mostra, mais uma vez, a raiva que sente pela sua mãe. Foi como que um grito de desespero por uma situação que nunca vai ter uma resolução, ou pelo menos essa é a minha interpretação de tal. A Sara Castanheira deu tudo nesta performance e merece todos os elogios. Quer a dançar, quer a cantar, quer seja a fazer o que for, não deixou nada fora da mesa. Tirando as coisas que tirou e meteu, na literal mesa presente em palco, durante toda a peça.

    Vem agora o aviso de spoiler para quem não viu a peça e prefere não saber o final, caso tenha oportunidade de a ver noutra altura, essa qual não sei, pois não faço ideia de outras datas e locais que possam vir a receber esta obra.

    O fim da peça vê as duas personagens, a mãe e a filha, a morrerem, envenenadas pelo pai. Este fez um bolo para o seu aniversário e utilizou veneno para ratos no mesmo. Este mesmo veneno foi várias vezes mencionado durante a peça, maioritariamente pela filha. Admito que quando estas começaram a morrer em palco, estava confuso com o que se estava a passar, tendo precisado de alguns segundos para processar a situação. Quando percebi, conectei imediatamente os comentários de que o bolo estava pouco doce, com as duas personagens a terem interpretações diferentes sobre esta falta de açúcar, como seria de esperar, mas sem nenhuma estar certa.

    Tudo leva a crer que este envenenamento foi 100% propositado e premeditado pelo pai, que aparece pela primeira vez em cena após estas estarem mortas, empurrando as duas para fora das suas cadeiras e a sentar-se na mesa, agora sozinho. Como um bom aluno de Humanidades, tenho de questionar o que significa este final, qual é a mensagem subliminal presente. Até podem estar agora a pensar que, talvez, não haja nenhum, mas a própria ausência de um significado é um significado em si. A linguagem é uma coisa incrível.

    Existem então algumas possibilidades, a meu ver, do que pode significar este final. Tendo em conta que a filha era suposto ter feito o bolo com o pai, mas acabou por se distrair com mais uma discussão com a sua mãe, pode ser feito o caso de que a raiva da filha matou-as às duas. Também se pode acusar a mãe da mesma coisa, já que esta é que distraiu a filha. O papel do pai no meio disto é que é o mais difícil de encaixar, já que só entra fisicamente em cena no fim, com breves participações auditivas não verbais ao longo do todo. Com a mãe a admitir, para si mesma, que nunca o amou e só o utilizou devido ao seu trabalho, que lhe trazia estabilidade financeira, podemos calcular que este eventualmente se apercebeu disto e se vingou, ainda que não justifique matar a própria filha.

    A filha, tirando o ter de tratar do seu pai fisicamente debilitado por uma doença, não se queixou deste a mal tratar durante a sua vida, o que me leva a crer que estes tinham uma relação minimamente funcional. Desta forma, e tendo em conta que a peça é acerca da relação entre a mãe e a filha, o pai serve mais como um meio para um fim. Este encarna a morte, que dá um juízo final e leva as duas consigo, consumidas por raiva e ódio, sem qualquer chance de redenção após uma vida de oportunidades.

    O pai, quando finalmente entra em cena, empurra as duas para fora das suas cadeiras, quando ambas estavam já sem vida. Isto leva-me a crer que o envenenamento não foi um acidente, e sim planeado e executado com um objetivo claro e concreto. Independentemente do que levou a dar a oportunidade ao pai de poder cozinhar o bolo sozinho, e poder assim envenená-las sem elas terem qualquer ideia, a realidade é que o pai, encarnando em si qualquer tipo de simbolismo que nós lhe queiramos embutir, escolheu matá-las, às duas.

    A mãe é fácil de compreender o porquê de ter sido envenenada. É um ser humano com claros sinais de sociopatia e definitivamente narcisista. Uma personagem sem quaisquer qualidades que a redimam, tirando a parte cómica, que na personagem é não intencional e mórbida, mas em termos de performance é, como já referi, excelente. Com a filha é que tenho algumas dúvidas acerca do porquê dela morrer. Todos os sinais indicam que esta sofreu física e psicologicamente às mãos da sua mãe, mas é importante relembrar que esta escolheu manter o ciclo de violência, descarregando na pessoa que a atormentou. Parece estar a passar por dificuldades financeiras, não tendo um emprego e vivendo com os seus pais numa idade avançada. Será que o verdadeiro vilão é o capitalismo?

    Não, quer dizer, sim, mas não aqui e não agora. A filha devia ter cortado a relação com a sua mãe o mais rapidamente possível após sair de casa. Devia ter imposto limites e restrições sobre a mesma. É mais fácil dito que feito com uma pessoa daquelas, mas ações deviam ter sido tomadas para cortar este ciclo de traumas e maus tratos. Além de que podemos usar o mesmo argumento para a mãe, já que não sabemos as suas origens e o que experienciou enquanto era mais nova, também pode ter passado por maus tratos e descarregado desta mesma forma nas pessoas que lhe falharam. Não podemos controlar as ações de outras pessoas, mas devemos tentar controlar as nossas próprias ações. A mãe estava para lá de corrompida, e a filha estava a caminhar na mesma direção.

    Existe um ditado, que tem a sua origem em Mahatma Gandhi que, por sua vez, respondeu a uma passagem do Livro do Êxodo, segundo livro da Bíblia. Por sua vez, tem uma origem ainda mais antiga, chamando-se Lei de Talião, proveniente do Código de Hamurabi, um monumento monolítico que contém leis babilónicas criado há quase 4000 anos atrás, há volta de 1700 anos antes de Cristo, na antiga região da Mesopotâmia, atualmente Irão. Isto foi só um pequeno aparte para amantes de história, voltemos então ao ditado. "Um olho por um olho, e um dente por um dente." é a passagem original, com o objetivo a ser de retaliar de uma forma punitiva com um grau de severidade considerado "igual" ao qual se foi perjurado. A resposta de Gandhi a esta ideia é "Olho por olho, dente por dente... E todo o Mundo ficará, cego e desdentado!...", uma resposta clara a mostrar a tolice que é retribuir na mesma moeda e os efeitos desta mesma ação. Não é sustentável a longo prazo, e só traz efeitos negativos e nada produtivos.

    Assim sendo, a morte das duas personagens trouxe ao fim um ciclo de violência protagonizado pelas duas, mostrando que a raiva e o ódio só trazem devastação e dor, com a morte a ser tanto uma punição como uma benção, dependendo do ponto de vista é claro. O pai é apenas o meio utilizado para proporcionar o fim a esta dança sem fim. Esta é, provavelmente, a minha interpretação final da peça.

    Quero dar os meus parabéns a todos os envolvidos nesta produção, agradecendo a todos os que fizeram com que esta peça fosse possível de acontecer, e que chegasse até aos meus olhos e ouvidos para que a pudesse experienciar. Viva o teatro!


- Miguel Caetano Caeiro

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