Mickey 17

 


    Mickey 17 é um filme diferente. Quando digo diferente, digo-o num bom sentido, pois é uma forma criativa de abordar, criticar e satirizar a cultura global atual. Um crítica ao capitalismo e à forma como seres humanos são tratados por grandes corporações e como se tratam uns aos outros. Seria sempre esperado este tipo de crítica por parte de Bong Joon Ho, o realizador sul-coreano, conhecido por vários filmes, mas sobretudo por Parasite, filme que estreou em 2019 e ganhou vários prémios, entre eles o Óscar de melhor filme do ano. Quem viu qualquer filme deste realizador anteriormente, não se surpreende pelo que vê neste filme. Vamos então começar por abordar rapidamente a história do filme.


RESUMO DO INÍCIO DA HISTÓRIA

    Mickey é um jovem com um fututo pouco risonho pela frente. Além disso, é também uma pessoa com pouca confiança e sem grandes dotes a destacar. Começou um negócio com o seu amigo Timo, mas este acabou por falhar devido a uma má aposta de mercado e de gerência dos dois, o que acabou com estes a deverem muito dinheiro a mafiosos, algo que os levou a quererem sair do planeta, algo possível já que neste universo existem expedições para o espaço e para colonizar outros planetas.

    Enquanto que o Timo consegue um trabalho de alto nível, ainda que com um certo nível de falcatrua no seu CV, o Mickey acabou com, possivelmente, o pior trabalho possível. Ele próprio não sabia bem para o que se estava a inscrever, mas o trabalho envolvia a sua morte, e posterior regeneração do seu corpo, já que era um trabalho de alto risco e onde a sua morte fazia parte da descrição do trabalho.

    Tendo sido logo recrutado, já que foi o único idiota a aceitar os termos do trabalho, foi puxado à parte e aceite imediatamente, tendo tido o seu corpo e mente "guardados", para que pudesse voltar a ser "regenerado" ou "fotocopiado", permitindo que os cientistas a bordo fizessem várias experiências com ele. Estas experiências eram algo macabras para serem testadas em humanos, como expô-lo ao vácuo do espaço para ver o que acontece, ou até para desenvolver uma vacina, de forma a permitir que humanos possam andar na superfície de um planeta longínquo, algo que se tornou necessário no planeta até onde esta expedição foi.


IDEIAS E TEMAS PRINCIPAIS

    Diferentes pessoas com diferentes perspectivas e prioridades vão olhar de forma diferente para este filme. Quem veio pelo ângulo sci-fi tem um conceito interessante a explorar, a ideia da consciência e o corpo humano poderem ser guardados e replicados como se fossem um documento numa drive ou pen é um conceito cativante, com a abordagem do filme ao mesmo a ser diferente e fresca. Isto é o conceito de clonagem no seu estado puro, mas abordado de uma forma mais "realista", se é que se pode usar essa expressão neste filme.

    Existe também o ângulo político. Uma das personagens, a que é interpretada por Mark Ruffalo, é obviamente inspirada em Trump, ou melhor, é inspirada em líderes egocêntricos, sociopatas e completamente inaptos para a liderança. Se existe uma relação entre as duas coisas que referi anteriormente, deixo a interpretação aberta para qualquer pessoa. Agora, este ângulo é uma das peças fundamentais do filme, que faz uma clara crítica ao atual ambiente político em que vivemos. Ou talvez seja uma crítica intemporal que é, e sempre será, relevante, pois vivemos numa existência de ciclos sem fim. Vou deixar isto para os filósofos contemporâneos e continuar a falar do filme.

    Dentro do comentário social, este é visível na forma como a personagem principal é tratada. Não é a única personagem onde isto é visível, mas é aquela onde é mais fácil detectar. A casualidade com que a sua morte é tratada, o abuso ao qual é submetido, as condições em que vive e a maneira como é tratado por aqueles que estão "acima" dele na hierarquia... É fácil criar paralelos com a nossa realidade e a maneira como os trabalhadores são tratados pelas grandes corporações, que geram lucros brutais nas costas de trabalhadores que são pagos o mínimo possível e tratados como coisas que podem ser descartadas assim que criam qualquer tipo de "problema". Problemas estes como exigir melhores condições de trabalho e salários que representam o seu contributo e que lhes permitem viver e não apenas sobreviver.

    Okay, deixei-me levar um pouco no último parágrafo, mas tudo o que disse é válido e fácil de interpretar através da narrativa. Mas existe outro ponto, um ponto talvez mais inspirador e algo escondido atrás destes anteriores. Esta não é uma história sobre clonagem, ou sobre política, mas sim sobre a natureza humana, a procura de significado e de autoconhecimento. Este é a história de um ser humano que aprende a valorizar-se a si mesmo. Transmite a ideia de que nós somos os nossos piores inimigos e críticos, mas também tem de partir de nós trabalhar para o inverso do mesmo, ao aprendermos a valorizar-nos e a gostarmos de nós mesmos. Não somos perfeitos, mas somos únicos, algo reforçado pela ideia de clonagem presente, que teoricamente poderia dar uma mensagem contraditória e contrastante, mas na realidade serve de forma perfeita para mostrar que cada ser humano é verdadeiramente único, como é possível observar através das diferentes personalidades dos clones do Mickey.


PERFORMANCES E DIREÇÃO

    É inevitável falar de Robert Pattinson aqui, que carregou o filme através de não só uma performance, como duas, já que interpretou duas versões da mesma personagem, Mickey 17 e Mickey 18, que só se conectam porque têm exatamente a mesma fisionomia, e mesmo aí é fácil distinguir as duas personagens através do sólido trabalho expressivo do ator. Pattinson tem aqui mais uma performance incrível, numa carreira que continua em crescendo, muito graças a atuações como esta. Não é um filme sério no seu fundo, mas Robert Pattinson consegue dar uma profundidade às suas duas personagens que tem de ser louvado. Mostra também o seu lado cómico, o que demonstra a sua versatilidade enquanto ator, capaz de encarnar qualquer papel, não interessa o estilo e género do filme. Bem, já chega de elogios ao homem, já deu para perceber que gosto dele enquanto ator.

    Os restantes atores fizeram um trabalho razoável, senão sólido ou mesmo bom. Mark Ruffalo é outro destaque, conseguindo ser verdadeiramente odiável como Kenneth Marshall. Toni Collette, que interpreta Ylfa, mulher de Marshall, tem também uma bela performance enquanto vilã. Naomi Ackie, que interpretou Nasha Barridge, namorada de Mickey, teve uma performance sólida. Steven Yeun está também neste filme, ator que fez de Glenn no The Walking Dead e Mark Grayson na série Invincible. Que bela série. É uma personagem que dá a ideia que é suposto ser importante na narrativa, mas na realidade acaba por passar um pouco ao lado do filme, já que existem largas porções do filme sem que Timo seja mencionado ou apareça. Ainda assim, o ator fez um trabalho sólido com o material que tinha.

    Relativamente à realização, ou direção, esta é sólida. Existem alguns momentos de excelência, normalmente momentos de tensão entre personagens, como seria de esperar de Bong Joon Ho. Efeitos especiais também são sólidos, tal como set design e guarda-roupa. O tom do filme é também o certo, com uma comédia negra que ajuda a digerir momentos mais estranhos ou tensos que possam existir durante o mesmo. Se este filme se levasse demasiado a sério, corria o risco de se tornar ridículo no mau sentido da palavra. Existe um mundo onde este filme seria 100% sério e tenso, mas arrisco-me a dizer que a mensagem, ou mensagens, que pretende transmitir não teriam o mesmo impacto e não seria, no fundo, o filme que o realizador queria fazer, a história que queria contar. Foi exatamente aquilo que queria, e tinha de, ser.

    Contudo, é um filme algo longo e que, em certas alturas, perde um pouco o seu foco. As mensagens que tenta transmitir são boas, mas acabam por sair algo engasgadas no meio de tantas ideias e coisas por dizer. Também não gostei da quantidade de narração, sobretudo no início do filme, com a personagem principal a estar constantemente a explicar tudo o que está a acontecer. Existem maneiras corretas de utilizar narração, mas a meu ver foi utilizada em demasia durante o filme, e sobretudo durante a primeira meia hora.


PENSAMENTOS FINAIS

    É difícil dizer se recomendo ou não este filme. Eu gostei, disso não há dúvida, mas também consigo ver que não é para todos. Para quem goste de ficção científica, acredito que há algo a retirar daqui, já que traz uma abordagem diferente a clonagem, como já mencionei antes, entre outras coisas presentes que têm também valor dentro desse mundo. A comédia negra do filme é algo que eu apreciei, sem dúvida. Se não tivesse esse lado cómico, não sei se teria visto o filme, e acho que não teria funcionado tão bem, mas claramente o filme foi planeado desta maneira. Parece-me que em termos da visão original que o realizador tinha para o filme, esta foi atingida. Não é perfeita, mas funciona.

    Ficção científica, comédia e Robert Pattinson são os pontos que mais atraem qualquer pessoa a ver este filme. É um bom filme, longe de perfeito, mas as suas limitações dão-lhe um certo charme, tal como a sua estranheza. Quase que acontece um "threesome", ou "menage à trois", entre os dois clones Mickey 17 e 18 e a sua namorada. É um filme estranho, no bom sentido da palavra, mas é. Quero mais filmes ambiciosos como este, que não sejam sequelas de alguma coisa ou parte de um universo maior, simplesmente uma história contida apenas dentro do próprio filme, sem ambições de criar mais uma saga, já são demasiados projetos que tentam fazer isso. É verdade que este filme é uma adaptação de um livro, mas não dá a ideia de querer fazer mais nada depois do seu final, a história acaba ali, pelo menos para a audiência.

    É um bom filme. Tem defeitos claro, mas é bom. Quero mais filmes únicos e até estranhos como este, pois é aqui que vemos algo diferente da norma. Esperemos que outros futuros filmes e projetos aprendam com os erros, falhas ou limitações deste, e consigam ter mais sucesso. Sucesso, neste caso, significa lucro para a empresa que produz o filme. Se estes projetos não se mostrarem viáveis financeiramente, vamos continuar a ter mais do mesmo, como versões live-action de filmes de animação adorados pela maioria, sequelas que ninguém estava a pedir e reboots desnecessários. Precisamos de mais, e melhor, variedade.


Mickey 17 - 7⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐


- Miguel Caetano Caeiro

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