A Caixa - Teatro Pax Julia (23 de Abril de 2025)
A Caixa é uma peça incrível e memorável. A peça começa com a notícia que a última pessoa que estava viva no momento da "Revolução" morreu. Por cima do placo encontra-se, lá está, uma caixa, a pairar por cima das cinco personagens em palco. O que é que tudo isto significa? Não sei. Melhor, cada um tem a resposta dentro de si. Melhor, todos temos a resposta, mas não existe uma resposta empírica e irrefutável do que está lá dentro. Talvez nem interesse o que está lá dentro.
Acebei de homenagear a peça, no parágrafo anterior, com todos os pensamentos que ficam na cabeça do espetador durante e após a ver. A Caixa é, no fundo, uma peça que aborda os temas de revolução e as heranças e deveres de sociedades que passaram por algo desta magnitude. As cinco personagens são, na sua essência, representações de diferentes grupos da sociedade, com diferentes perspectivas sobre o mundo que as rodeia, discordando umas das outras, causando fricção e drama.
O momento que inicia a história é a notícia da morte da última pessoa que se lembra desta tal revolução que ocorreu à quase um século atrás, 98 anos, se não estou em erro. Uma caixa está a pairar sobre as personagens, com algumas a querer abrir a caixa, outras querem mantê-la fechada, outras acham que nem sequer é importante. O que é certo é que algo as atrai para a caixa, quase como se fosse uma herança deixada por um velho familiar que mal conheciam, mas reconheciam a sua importância. Volto a repetir a pergunta, o que é que tudo isto significa? É aqui que temos de usar a nossa imaginação e interpretação dos acontecimentos.
Tal como as personagens em palco, todos os espetadores ficam a pensar acerca do que poderá estar contido nesta caixa. Nunca chega a ser dada uma resposta concreta, pelo menos não que eu me tenha apercebido, por isso vou aqui dar a minha opinião sobre o que tudo isto significa. Para mim, a caixa é tudo e é nada, é o que queremos e o que não queremos, o que mais amamos e o que mais odiamos, é o futuro e o passado, o provável e o improvável. A caixa é a nossa imaginação e a nossa existência.
Ok, agora de uma forma menos pretensiosa, a caixa é uma entidade completamente desconhecida, e como tal, é delimitada e delineada pela imaginação de cada um. Quem não está satisfeito agora, quer abrir e vê a abertura da caixa como uma oportunidade de algo melhor, quem está satisfeito agora, vê a abertura da caixa como uma ameaça ao que tem neste momento, não a querendo abrir. No contexto de uma geração que não passou por uma revolução, só conhecendo o que experienciou até agora, a caixa a surgir após a morte da última pessoa que a experienciou é uma incógnita. É como que o passar da tocha para a nova geração, que tem de decidir o que fazer com a caixa, daí a referência a herança que fiz anteriormente.
Voltando à minha interpretação disto, a caixa é, para mim, os amigos que fizemos pelo caminho. Não sei, quando comecei a escrever este texto pensei que chegaria a este ponto com uma ideia mais clara, mas com tantas possibilidades apelativas, a caixa acaba por ser um daqueles quizzes de personalidade, e eu sou um guloso, porque gosto de demasiados. A realidade é que da maneira que eu descrevi A Caixa, ficou claro que esta peça me fez pensar, e de que maneira. Não será essa a maior vitória possível para uma peça de arte?
Tenho de destacar os atores: Miguel Magalhães, Clara Spormann, Sara Madeira, Rui Westermann e Ana Malta. Foram todos incríveis e merecem todas as congratulações possíveis pelas excelentes performances. Aproveito também para elogiar toda a produção envolvente neste projeto e dar os parabéns à Companhia do Sueste em geral, pelo excelente trabalho realizado. Gostei bastante das músicas, sobretudo da segunda, ou a que decorre a meio da peça. Não sei o nome, mas foi mágica.
- Miguel Caetano Caeiro

Comentários
Enviar um comentário