F1: The Movie
F1: The Movie é, como diz no título, um filme acerca de Fórmula 1. Liderado por Brad Pitt, que interpreta a personagem principal, juntam-se a ele o realizador Joseph Kosinski, o mesmo realizador do filme Top Gun: Maverick, o guionista Ehren Kruger, que acredito não ser o mesmo que está presente no anime Attack on Titan, e o lendário compositor Hans Zimmer. Todo este talento junto para criar um filme relacionado com o que é o meu desporto favorito, não podiam falhar. E, apesar de na parte do guião as coisas não terem sido particularmente suaves, já lá vamos, a cinematografia e todas as componentes visuais e auditivas são verdadeiramente excelentes, juntamente com a banda sonora original criada pelo mítico Hans Zimmer. A ação em pista está incrivelmente bem conseguida, com uma qualidade que vai, com certeza, garantir pelo menos algumas nomeações para Óscares, na vertente visual e cinematográfica. O guião é que certamente não vai estar perto de conseguir algo parecido a um prémio.
RESUMO DO INÍCIO DA HISTÓRIA
Falando sobre a história do filme, é bastante previsível e cheia de clichés, isso é certo. Não existe nada particularmente novo ou fresco na narrativa, seguindo uma lógica bastante comum de outros filmes semelhantes. Sonny Hayes, interpretado por Brad Pitt, é um piloto veterano que disputa diferentes modalidades, consoante o trabalho que conseguir encontrar. Após vencer as 24 Horas de Daytona, numa sequência introdutória do filme verdadeiramente incrível, este é abordado por um velho amigo. Ruben Cervantes, interpretado por Javier Bardem, oferece-lhe a oportunidade de regressar à F1, com este a ser o chefe de equipa da APX Racing, uma equipa em dificuldades e que precisa de uma vitória até ao final da época para evitar a venda da equipa.
Sonny fica cético relativamente à oportunidade e recusa inicialmente a oferta, mas como isto é um filme, claro que aparece na sessão de testes em Silverstone para conduzir o carro e conduzir na F1 pela primeira vez em 30 anos. Sim, Sonny Hayes era uma jovem promessa nos tempos do início de carreira de Michael Schumacher e do mítico Ayrton Senna, tendo tido um grave acidente ao tentar passar o próprio brasileiro em Jerez, acabando prematuramente a sua carreira na F1. O Sonny acaba por conseguir um tempo ao nível da atual jovem promessa Joshua Pearce, interpretado por Damson Idris, e assina pela equipa para as últimas nove corridas da temporada, com o objetivo de tentar ajudar a equipa a conseguir uma vitória. Esta equipa, em duas épocas e meia na F1, não conseguiu um único ponto. Conseguem decifrar o que acontece daqui para a frente, mesmo que não tenham visto o filme.
FICÇÃO VS REALIDADE
Este filme tem alguns problemas na sua história, mas também na ação em pista. Não na sua qualidade visual, mas na lógica do que acontece e no seu objetivo geral. O Sonny comete uma série da infrações em pista que fariam o Kevin Magnussen corar, sendo que vários dos incidentes que acontecem no ecrã são com o dinamarquês, curiosamente. A personagem principal parte a sua asa dianteira múltiplas vezes de forma a ajudar o seu companheiro de equipa a pontuar, ao trazer o safety car e a provocar bandeiras amarelas e vermelhas, ignora bandeiras azuis que, para quem não percebe o significado destas, servem para avisar os pilotos mais lentos em pista que estão a ser "dobrados" pelos pilotos mais rápidos, o que significa que os pilotos lentos têm de deixar esses pilotos rápidos passar à sua frente, de forma a não prejudicar as suas corridas. Os pilotos lentos não podem passar por mais de três bandeiras sem cederem a posição, pois serão penalizados. Para quem não vê este tipo de desporto, pode ficar a pensar que estou a exagerar e a ser demasiado duro com o filme, mas acreditem que não estou, eu até sou um dos fãs mais brandos acerca desta situação. A realidade é que o filme toma demasiadas liberdades criativas com as regras da F1, o que acaba por denegrir a imagem e integridade do desporto.
Ao ver o Sonny Hayes a criar contactos deliberados com outros pilotos, só me conseguia lembrar do "Crashgate", uma situação que falei à pouco tempo devido ao regresso de Flavio Briatore como chefe de equipa na F1. Para os iniciados neste tipo de assuntos, "Crashgate" foi um dos maiores escândalos da história da F1, onde Briatore pediu a Nelson Piquet Jr. para bater no muro, de forma a beneficiar a estratégia do companheiro de equipa, Fernando Alonso. Toda esta situação levou a que pessoas fossem banidas do desporto, apesar de terem acabado por regressar eventualmente. A ideia de mostrar um piloto a criar contactos propositados para beneficiar a sua equipa é controverso e não deve ser celebrado. É verdade que é um filme, é ficção, mas uma pessoa que não veja este tipo de desporto fica com uma ideia completamente errada de como o desporto verdadeiramente funciona.
A realidade é que quando se vêm pilotos a causarem incidentes ou a tocarem de forma propositada noutros, como o Schumacher fez com o Damon Hill em 1994 e com o Jaques Villeneuve em 1997, ou o Prost vs Senna em 1989 e 1990 em Suzuka, ou os múltiplos incidentes entre o Verstappen e o Hamilton em 2021, curiosamente todos estes por títulos, todos foram momentos incrivelmente controversos e que, no caso de 97', levou mesmo à desqualificação de um dos pilotos, nesse caso foi o Schumacher, obviamente. Diria que as situações de 90' e de 94' também deviam ter levado à desqualificação do Senna e do Schumacher, respetivamente, que causaram incidentes de formas bastante óbvias para vencerem os respetivos títulos. Olhando para um exemplo mais recente, no Grande Prémio de Espanha de 2025, sim, muito recente, Max Verstappen foi contra o carro de George Russell perto do fim da corrida, levando a que este tenha sido penalizado e terminado a corrida apenas no 10º lugar. Muitos defendem que devia ter sido desqualificado, e eu não me oponho a essa opinião. Se foi propositado ou não, isso fica no ar, mas ao ver em direto, pareceu bastante propositado, ou um erro absurdo de um piloto quatro vezes Campeão do Mundo. Estes momentos são icónicos, verdade, mas afetam negativamente o legado dos pilotos neles envolvidos. Demonstram um lado negro e feio de desportistas, onde estes demonstram a falta de respeito para com o desporto e para com os seus rivais, além da falta de respeito pelos fãs. Para mim, a verdade desportiva deve estar sempre acima de tudo, e quando um piloto tenta abalroar outro para vencer, essa verdade morre. Existe uma diferença entre ser um competidor duro e ser um competidor batoteiro, e este filme demonstra o segundo exemplo e não o primeiro com a sua personagem principal em vários momentos.
Custa-me a acreditar que a FIA e a F1 em geral, Liberty Media, aceitaram promover um filme que mostra este tipo de ação em pista. Este filme é puramente ficcional, ninguém obrigou os guionistas a colocarem isto na história, foi uma escolha premeditada e uma parte integral do filme em si. Não estou aqui a dizer que não podem mostrar incidentes nem acidentes, mas a maneira como estes são demonstrados mostram uma narrativa que não se preocupa com as ideias de fair-play e desportivismo. Podiam até ter mostrado as mesmas ações mas através de uma perspectiva diferente, onde é demonstrado como errado o que a personagem principal faz, mas tal não se sucedeu.
CINEMATOGRAFIA E PERFORMANCES
Falando agora sobre pontos positivos, em termos técnicos, este filme é uma maravilha. Se a ação em si é muitas vezes debatível na sua lógica, o mesmo não pode ser dito da sua estética. As cenas de corrida são incríveis de um ponto de vista visual. Os ângulos colocam o espetador dentro da ação, mostrando e contextualizando tudo o que acontece à volta do carro que se está a acompanhar. Utilizam alguns ângulos usados na cobertura televisiva habitual das corridas de F1, mas introduzem alguns novos, além de utilizarem uma rotação 360º em vários momentos para mostrar exatamente aquilo que é pretendido, como as ideias de velocidade e perigo ao longo das várias sequências de corrida. A cinematografia neste filme é mesmo genial e merece todos os elogios possíveis. O trabalho relacionado com o som esteve também incrível, ao nível do resto. A trilha sorora, composta por Hans Zimmer, foi também muito boa.
As performances dos atores também merecem destaque, isto apesar do guião não ser particularmente forte, já que a história, como já mencionei, contém imensos clichés e uma ideia terrível do que F1 realmente é e como funciona. Ainda assim, Brad Pitt é um ator incrivelmente carismático e consegue fazer a sua personagem funcionar, minimamente. O mesmo pode ser dito para a personagem de Javier Bardem, outro grande ator mas que não tem muito para trabalhar. Ambos são vencedores de Óscares, este guião não lhes fez justiça. Kerry Condon, que interpreta a diretora técnica Kate McKenna, sofre exatamente do mesmo problema, um guião fraco para uma excelente atriz, que já foi nomeada para um Óscar. Damson Idris fez também o melhor que pode, mas a sua personagem acaba por não ter o impacto e importância que os trailers prometiam.
PENSAMENTOS FINAIS
Posso parecer bastante negativo com o filme, mas a realidade é que desfrutei bastante quando o vi no cinema. Não entrei com quaisquer expectativas e apreciei o espetáculo. Ainda assim, a realidade é que quanto mais penso no filme, mais frustrado fico com a oportunidade perdida de mostrar uma narrativa incrível, ao nível do Rush, com uma cinematografia extraordinária. Em vez disso, tivemos direito a uma história medíocre, carregada por muito bons atores que se viram forçados a trabalhar com conteúdo fraco e desinspirado. Joseph Kosinski tentou recriar a magia presente no seu maior sucesso, Top Gun: Maverick, mas infelizmente não conseguiu criar o mesmo impacto narrativo que esteve presente nesse filme. Não senti a mesma conexão que tive com as personagens no outro filme, e esse é um dos elementos chave que separa estes dois filmes.
Desejo bastante sucesso a este filme, mas vou continuar a rever o Rush e a considerá-lo como o melhor filme de F1 alguma vez feito, até que alguém decida fazer um filme com um enredo cativante e um grande nível de respeito pelo desporto em si. Talvez tenha de ser eu mesmo a fazê-lo um dia...
F1: The Movie - 7⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐
- Miguel Caetano Caeiro

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